domingo, novembro 08, 2009

Um legado censurado

Não sendo fã do artista nem da pessoa estranha e confusa que terá sido, aqui lhe presto a minha homenagem por este trabalho espantoso.

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quinta-feira, setembro 24, 2009

Riso Amarelo

É entendível a aversão que, duma forma geral, os políticos têm pelos militares.
É que os militares, e também dum modo geral, regem a sua actividade e a sua vida por princípios e os políticos por fins, ficando pelo meio um longo caminho que os primeiros percorrem e os segundos saltam.
Os militares acabam por gastar-se no percurso raramente atingindo os seus fins, enquanto que os políticos se renovam em cada pulo que dão, mesmo com alguns trambolhões pelo meio que em pouco ou nada os afecta.
O clubismo político faz cair barreiras esquecendo asneiras e promessas não cumpridas, enquanto os militares são acusados de espírito corporativo sempre que saem dos quartéis para defender os seus legítimos interesses e até censurados pelos seus pares.
Gostaria de saber o que seria deste país se aos políticos fossem cortados metade, dos designados privilégios, que aos militares foram retirados sem delongas, desde que ofereceram de bandeja aos políticos e ao país uma democracia sem reticências.
É curioso e ao mesmo tempo humilhante que numa campanha onde se deveriam discutir as formas de, organizadamente, levar o país a sair do buraco em que o meteram, os políticos não tragam à baila mais do que claques e palavras de ordem, além de insultos e as mentiras do costume.
É desprestigiante que os políticos se exponham a ser alvo da chacota pública num programa televisivo que corajosamente os achincalha, e que só lhes consegue arrancar sorrisos amarelos e evasivas mais ou menos jocosas.
Confesso que não estou a ver nenhum militar capaz de se sujeitar a uma situação dessas, ainda que com isso garantisse algumas das poucas regalias de que ainda desfruta.
Rir é uma coisa! Rirem-se de nós e com razão, é outra muito diferente!
Eu rio-me para não chorar!

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quinta-feira, maio 21, 2009

O Veículo do Futuro

Não defendo a professora! Não defendo a aparente postura da professora!
Não defendo as professoras, nem os professores! Pela postura que permitem aos alunos nas suas aulas!
Uma coisa leva à outra e talvez a professora se tenha deixado levar pelo clima gerado à sua volta, que também é culpa dela.
As escolas são locais de ensino-aprendizagem, onde é pressuposto os professores ensinarem e os alunos aprenderem. Não o inverso!
Se os alunos não aprenderem mais do que aspectos técnicos e científicos, o que se pode esperar da sua contribuição tão necessária ao desenvolvimento do País, nos aspectos sociais, culturais, humanos? Duma forma condensada aos aspectos de relações interpessoais que são aquelas que mais irão usar ao longo da vida?
Como é possível a construção dum país mais justo, mais fraterno, mais solidário se esses valores não começarem a ser cultivados deste tenra idade nas escolas?
Que interessa manter alunos até ao 12º ano nas escolas, nestas condições?
Não meus amigos educadores, pais, e todos os outros intervenientes no processo ensino-aprendizagem. Se quisermos que os nossos filhos não andem a perder tempo nas escolas, vamos todos dar-nos as mãos e inverter todo este processo de dissolução de valores básicos numa sociedade que se deseja e quer justa.
Vamos estatuir os direitos e deveres dos professores e alunos no que concerne ao seu relacionamento dentro e fora das escolas.
Duma vez por todas, façamos com que este caso desta professora sirva para mais alguma coisa do que arranjar um bode expiatório para todo um sistema pervertido que faz das escolas local de aprendizagem criminal para os alunos e de expiação e penitência para os professores.
Façamos das escolas uma catedral da fé nos valores democráticos duma sociedade livre, mas cumpridora dos seus deveres e obrigações.
Não deixemos que se cave um fosso intransponível entre escola pública e privada, baseado na forma como estes valores são geridos.
Só as classes sociais mais desfavorecidas terão a ganhar com isso, já que dificilmente terão oportunidade de acesso ao ensino privado neste país.
Isto é imperioso! Muito mais do que um novo aeroporto ou dum TGV. A nossa ligação ao mundo que nos rodeia será muito mais rápida e segura se todos tomarmos este veículo lento mas que teremos a certeza de chegar um dia ao ponto desejado – o nosso orgulho de país desenvolvido e educado.

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sábado, abril 18, 2009

Até que enfim, a chuva!


Finalmente, embora um pouco tarde, a chuva.
Parou a Primavera, mas safou ainda algumas culturas e sementeiras que ameaçavam juntar-se ao resto da crise que avassala o Mundo e este País.
Julgo que só um retorno às coisas simples poderá resgatar alguma naturalidade que vai faltando e contribuir para a retoma da confiança perdida que esteve e está na base desta tragédia social, que a crise financeira apenas agravou.
Há muito que ela se vinha delineando. Ninguém entendia que se dessem subsídios para arrancar olivais, para não trabalhar a terra, se atribuíssem cotas na produção leiteira com fortes penalizações para os prevaricadores. Onde está então a dita economia de mercado? Porque não deixam funcionar o mercado e ser ele a ditar as suas leis?
Porque proteger produções de países com climas frios obrigados ao gasto excessivo de energia no aquecimento de estufas, quando os países mediterrânicos poderiam consegui-lo com custos energéticos menores?
Porque transformar países como Portugal e outros de mão de obra barata na montagem de equipamento pesado, como a indústria automóvel e na produção satetilizada de peças e sobressalentes para maquinaria e equipamento produzido noutros países, fragilizando mais a sua já débil economia, fazendo-a depender do exterior e sempre sob a ameaça de mudanças de agulha repentinas - as malditas deslocalizações?
Julgo que o regresso à terra e àquilo que ela pode e deve produzir servirá para devolver a dignidade de quem trabalha no que é seu e garante a sobrevivência duma estrutura agrária que se quer forte e sadia, capaz de fixar e rejuvenescer as populações rurais e fazer diminuir a dependência em bens alimentares.
As empresas agrícolas bem estruturadas e apoiadas tecnicamente têm êxito garantido, como o demonstra a vitalidade do sector da vizinha Espanha, que não se coíbe de fazer investimentos chorudos no nosso país. Se para eles dá, porque não dará para nós?
Julgo que era tempo de se olhar para o campo não apenas para ver a paisagem aos fins de semana, como refúgio do dia a dia citadino monótono e angustiante, mas com o olhar de quem quer ver o seu país estendido ao interior, fazendo-o participar activamente no desenvolvimento estruturado e equilibrado tão necessário.
Julgo que as estruturas básicas, para isso, até já existem, faltando apenas garantir que produzam trabalho efectivo e não sirvam apenas de trampolim político.
Incentivem, apoiem tecnicamente e orientem os produtores e empresários agrícolas capazes e esta crise pode vir a ser o motor de arranque dum novo país, mais perto da suas origens, mais chegado ao seu património cultural, porventura mais longe da realidade virtual em que tem vivido até aqui!

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sexta-feira, março 06, 2009

O Discurso do nada

Os alinhamentos políticos têm agora uma componente discursiva de cassette, anteriormente só apontada ao PCP.
Acontece que terão descoberto a eficácia da repetição como arma política de eleição e para eleições à porta.
Deixou de haver criatividade, porque perdeu-se a iniciativa que orientava alguns partidos, ditos de esquerda, e que de certa maneira animavam o debate político pela coragem de algumas posições assumidas.
Hoje, os compromissos com o eleitorado, impõem uma verdadeira vacuidade de conteúdo ao discurso político, ficando-se este pelo apontar os defeitos dos outros em vez das próprias virtudes.
Toda a oposição está emparelhada no ataque ao partido do governo. Este, retribui com ataque muito mais cerrado e intenso aos partidos à sua esquerda do que à sua direita. Dir-se-ia que o temor de perder a maioria absoluta reside mais nos votos que a esquerda lhe possa roubar do que aqueles que uma direita paralítica, sem liderança e com o discurso roubado por ele, lhe possa causar.
E a crise grassando. Todos os dias roubando postos de trabalho, quebrando os fracos elos de uma confiança corroída por dentro e por fora, lançando em ignominioso desespero milhares de famílias.
É necessário que alguém dentro das máquinas partidárias ouse acender uma luz ao fundo do túnel, por muito ténue que seja, mas um gesto que indique um rumo a seguir, sem roupagens enganosas nem efeitos especiais, com um discurso sereno, credível e corajoso, capaz de cumprir a tarefa obrigatória e urgente de mobilizar as forças produtivas.
Não um salvador da pátria, mas um salvador do atoleiro político em que nos estamos todos os dias a atascar mais.

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domingo, janeiro 04, 2009

Ano da Opinião

Tenho tido grande dificuldade em arranjar disposição para escrever o que quer que seja.
Com tudo o que se passa à nossa roda, não se pode dizer nada que não esteja impregnado desse mal-estar envolvente, dessa ameaça atroz que sobre nós todos paira e nos amofina e ensombra.
Já não bastava a crise, para nós coisa intrínseca e rotineira, como agora o espectro duma guerra que sobre nós se abate e que nos entra pela porta dentro como um "reality show", às horas mais impróprias com as imagens mais brutais e chocantes.
Que poderei dizer a um neto que me pergunta o porquê destas coisas? Como poderei dissuadi-lo de ver programas TV violentos e aliciá-lo a ter do mundo uma visão de fraterna e responsável partilha?
Como poderei fazê-lo entender que os protagonistas desta contenda estão apoiados pelas superpotências e pelos seus mentores espirituais e religiosos?
Como explicar-lhe que um dos beligerantes está usar meios desproporcionados e práticas semelhantes às usadas contra si pelos agressores nazis na 2ªGrande Guerra, que criaram na opinião pública mundial uma onda de solidariedade que condenou e derrubou esse regime brutal?
Que dizer-lhe da passividade e inocuidade do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que não consegue ir além de um blá, blá, blá conivente?
Desculpem-me a indisposição para dizer e desejar coisas bonitas neste novo ano tão mal começado!
Fica a impressão de que estão todos interessados em resolver rapidamente e sem tréguas um assunto pendente, antes que a opinião pública, sobretudo a americana, possa ser alterada a partir da tomada de posse do novo presidente eleito.
Segundo as palavras deste, os Estados Unidos só têm um Presidente. Tudo bem!
Esperemos que não tenham apenas uma opinião.

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segunda-feira, dezembro 15, 2008

Esquerdo, direito, um, dois...


Com o rufar dos tambores, há que acertar o passo.
Nestas coisas de passo certo, existem sempre os que não atinam.
Lembro-me do instrutor de infantaria perder a cabeça com o Quintino, porque não conseguia nunca manter o passo certo com o dos camaradas ou balançar os braços alternadamente com o movimento das pernas. Dislexia diziam uns, falta de coordenação motora outros, indisciplina interior digo eu.
O que quer que seja, nasce connosco e muito dificilmente conseguimos ultrapassar a não ser à custa dum esforço enorme que nem todos estão dispostos a despender.
Por outro lado, a dislexia política é bastante frequente, mas não apresenta sempre a mesma sintomatologia. Há quem não saiba muito bem qual a sua mão direita e quem não distinga o braço esquerdo do extremo esquerdo.
Mas existem aqueles que, como o Quintino, não conseguem alinhar só por alinhar, manter uma cadência ordenada por tambor ou por voz autoritária de comando.
Quantas vezes o Quintino virava à esquerda quando a voz de direita volver se fazia ecoar?!
Também é verdade que às vezes acertava. Mas era preciso um esforço enorme e uma atenção que nem sempre estava disposto a dedicar ao acto.
Voltando à política, não me parece que a divisória e a distinção devam ser feitas pelo modo como se alinham no hemiciclo da Assembleia, mas pela maneira como defendem os interesses e os valores dos que os elegem e de quem devem ser representantes.
Assim, aqueles que mentem com todos os dentes que têm na boca, que impõem o rufar dos tambores da disciplina partidária, esquecendo compromissos assumidos, que fazem do poder uma promiscuidade de interesses económicos e políticos, esses não têm nome nem se situam à direita ou à esquerda, mas por baixo da ética, para não falar já dos que transpõem o patamar da legalidade.
Do meu ponto de vista, criar um novo partido só para ganhar o poder ou para roubar o poder a quem o detém, é quase tão mau como o que hoje temos.
Entendo que a luta deve ser levada a cabo dentro dos partidos existentes, tentando expurgar deles o que não presta e desacredita a classe política e põe seriamente em risco a democracia parlamentar, abrindo portas a aventuras desesperadas de gente cada vez mais desesperada.
A crise em Portugal não é passageira, porque não é conjuntural. A crise em Portugal é estrutural porque resulta incapacidade para nos organizarmos mental e politicamente em termos honestos, traçando linhas claras de orientação e reformulação de processos, de definição explícita das metas a atingir e de tudo fazer para que as mesmas sejam atingidas em tempo oportuno e sem desvios significativos.
Enquanto a Política for considerada como no tempo de Bordalo Pinheiro, não existem esquerdas nem direitas que lhe valham.

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sexta-feira, dezembro 12, 2008

Cravos Desbotados


Hoje recebi, por mail, um vídeo de um inquérito de rua sobre a história mais recente deste país.
Senti-me corar dos pés à cabeça com vergonha da quase totalidade das respostas a perguntas sobre factos e entidades.
Atingimos um ponto de analfabetismo histórico e político nunca antes imaginado. É de facto uma tristeza convivermos com esta falta de memória colectiva. E é preocupante em termos de futuro na medida em que demonstra a falta de interesse por aquilo que nos ergue como povo e como nação há já quase um milénio.
É quase insultuoso para as famílias daqueles que pagaram com a vida a resistência à ditadura salazarista, ouvirem algumas das respostas.
Defendo de há muito que as escolas de hoje, em oposição a alguns opinadores saudosistas, são melhores por razões de ordem vária: os alunos estão na escola com prazer, os professores estão mais bem apetrechados tecnicamente para ensinar, os conteúdos programáticos não apelam tanto à memória, existe uma diversidade de meios de apoio tecnológico ao ensino que o torna mais apelativo e a aprendizagem mais amigável.
Mas não lhes perdoo falhas desta natureza. Que não enquadrem historicamente os alunos e futuros cidadãos deste país. Que os não façam amar este país e ter orgulho na partilha dos seus valores como nação. E para isso teriam que ser exaltados os que deram rosto à liberdade que hoje podemos desfrutar e que ainda nos vai permitindo emitir este tipo de opiniões.
Os pilares da democracia deveriam ser a nova tabuada escolar, sabidos na ponta da língua de trás para a frente. Julgo que os professores entendem melhor isso hoje do que nunca.
Exaltem-se os famosos de Quarenta mas que não sejam esquecidos os generosos rebeldes de Setenta e Quatro.

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....eis a questão!

Não gosto de alinhamentos, nem políticos nem outros, que me obriguem a obediências cegas, a trilhos batidos, a regras de ocasião, a balir ou a uivar por apito.
Parece uma incongruência para quem foi militar, mas não é. De facto, as regras ou regulamentos militares não são de ocasião e são para cumprir por todos. Assentam em princípios e não são só meios para alcançar determinados fins. Regem toda a vida dos militares e não somente os aspectos ligados ao seu desempenho profissional. São uma teia que os liga e amarra a conceitos interiorizados de lealdade, camaradagem, justiça e estoicismo que pode mesmo levar ao sacrifício da própria vida.
Todos os alinhamentos que se estabeleçam que não visem criar laços deste tipo, estão votados à rotura ou a manterem-se sob coacção.
Um poder estabelecido, numa democracia parlamentar, que não consegue dialogar quando necessário, que não tem a noção do limite da força a utilizar, mesmo se legitimado por uma maioria absoluta, acaba por defraudar os valores morais,sociais e políticos, de que está investido, e abre a porta a tendências autoritaristas.
Liga-se a televisão e em todos os canais, nos noticiários ou programas de informação, está generalizada a contestação às medidas do governo, sejam elas de que natureza forem.
Porquê, perguntar-se-á. Resposta simples – falta de credibilidade do poder executivo. Apanhado numa série de incoerências e contradições, tem dificuldade em conseguir passar a mensagem. Resta-lhe impor a vontade, uma vez que desfruta de maioria absoluta no Parlamento.
Custa acreditar que o suporte parlamentar do partido do governo sancione sistematicamente medidas que se contrapõem, à partida, à doutrina política do próprio partido, transformando-o ideologicamente numa manta de retalhos, sem jeito nem medida.
Pode governar-se sem apoio do eleitorado, mas não se pode governar contra o eleitorado.
As coisas complicam-se quando às dificuldades estruturais se juntam as dificuldades conjunturais.
É bom que, quem tem por obrigação governar-nos bem, não descure a tarefa e trate de o fazer enquanto pode e os eleitores deixarem.

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terça-feira, setembro 02, 2008

Os valores e os números

Greve dos trabalhadores da Soflusa! Há quanto tempo se não ouvia falar ou se não via na TV o anúncio ou a notícia de uma greve neste país?! Porquê? Certamente porque as empresas estão a pagar bons salários aos seus trabalhadores, a proporcionar-lhes prémios de produção e incentivos à sua valorização profissional. Numa palavra, não devem existir razões de protesto nas relações laborais neste jardim à beira-mar plantado. A acreditar nisto, deveria a produção estar a bom nível, a economia florescente , o défice orçamental reduzido drasticamente e a inflação estabilizada em valores aceitáveis. Mas o que acontece não é propriamente isto, mas o inverso. Falências, deslocalizações , desemprego, economia estagnada, inflação instável, aumentos salariais inferiores à carestia de vida, endividamento familiar galopante, crise social alarmante, segurança de pessoas e bens comprometida. Mas, curiosamente, não há notícia de greves. E quando há, são sempre no sector público. Insisto. Porquê? O Estado é mau pagador? Já sabemos que sim! Mas e o sector privado é melhor? Estou em crer que na sua maioria, não! Porque não há greves, então? Porque não existe pessoal sindicalizado, na sua grande maioria com contrato a prazo, incompatível com práticas desta natureza. A bolsa de desemprego com que as empresas contam e jogam é de tal forma, que a exploração laboral estará a níveis nunca antes atingidos. Horários de trabalho, descanso semanal, férias, são argumentos que pesam hoje, como nunca, na manutenção do posto de trabalho. O desrespeito pelos direitos dos trabalhadores envergonharia qualquer governo de antanho. A força dos sindicatos há muito tempo que não estava tão debilitada. O medo do desemprego é hoje maior do que o medo da Pide doutros tempos. O Estado empregador está quase restringido às polícias e aos ministérios. A noção de serviço público está hoje praticamente em desuso com o recurso à compra de serviços a entidades privadas. As Forças Armadas não são hoje opção de vida para alguém que tenha um pouco de respeito por si próprio e pelos juramentos solenes prestados. Defender a Pátria dos seus inimigos será uma obrigação e um dever, mas servir interesses menos claros em jogos de poder a que o País é alheio, parece mais papel para mercenário. Os valores foram substituídos pelos números e os números nunca foram a nossa especialidade.

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quinta-feira, agosto 21, 2008

No Pódio da Memória


Hoje assistiu-se a uma situação insólita nos Jogos Olímpicos de Pequim. Não foi a medalha do Nelson Évora, porque essa estava mais ou menos nas expectativas, senão nossas, pelo menos dos seus antagonistas na peleja.
Mas dizia eu, que aconteceu o impensável. Duas equipas dos E.U. das estafetas de 4x100m, masculinas e femininas, falharam a passagem do último testemunho comprometendo em ambos os casos a sua qualificação para a final e de certeza para a medalha de ouro. Quantas horas terão treinado? Quanto terá custado a sua preparação? Foi mau para a competição, foi para os atletas, foi mau para a comitiva norte-americana que contava com mais essas duas medalhas na bagagem.
Mas será que o Chefe da Delegação se demitiu? Não creio. E porque haveria de o fazer? Também não enxergo.
O que aconteceu com a Naide Gomes é em tudo semelhante a uma passagem errada do testemunho. O quarto lugar a um ponto de diferença da medalha de bronze na vela do Gustavo Lima, parece-me brilhante embora o próprio preferisse naturalmente ficar na terceira posição ou na quadragésima quarta, já que esta tem um sabor muito amargo.
E os atletas do remo? E os atletas da marcha? Entendo que se portaram bastante bem. São modalidades menos visíveis. Mas também não me parecem muito visíveis as do judo e da esgrima. Criaram-se expectativas apenas a pensar nos nossos atletas esquecendo os seus adversários que também tinham uma palavra a dizer.
Se se soubesse, à partida quem ganhava, que interesse teriam as Olimpíadas?
Julgo que nas condições actuais do desporto em Portugal e face à escassa”matéria-prima” para selecção dos nossos representantes, só poderemos estar satisfeitos com os resultados obtidos.
Ao Vicente Moura, a solidariedade de quem conhece o peso da responsabilidade.
A toda a comitiva portuguesa os meus parabéns e, em particular, ao Évora e à Vanessa!

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sexta-feira, julho 18, 2008

A Escrita, a cultura e companhia...

Para a gente se aventurar no campo da cultura, mesmo de forma iniciática, tem que ser a tempo inteiro e sem intervalos ou recreios, escolher um modelo ou um mestre e tentar ser proficiente.
Não é compatível com exigências profissionais permanentes redutoras de tempo e flexibilidade mental.
Antes e nos primórdios do século passado, as pessoas com preocupações de ordem cultural organizavam-se em tertúlias ou grupos com afinidade de interesses, aí desenvolvendo as suas pesquisas, reorientando tendências ou ganhando aceitação e não raras vezes o estrelato.
O canudo a pouco e pouco foi ganhando estatuto e criando elites.
Nas escolas do meu tempo era notório o fosso abissal entre classes sociais de origem dos alunos.
A proximidade cultural entre alguns alunos e professores cavava ainda mais o dito fosso, legando para segundo plano todos os que tinham que fazer a ascensão a pulso.
Hoje, as coisas já não se passam exactamente assim mas existe um outro aspecto caracterizador da situação que tem contornos não muito diferentes.
O ensino-aprendizagem assenta muito no livre arbítrio e na capacidade das escolas em meios humanos e materiais para o concretizar. Por outro lado, os alunos têm acesso facilitado a meios áudio visuais e tecnologias que ajudam imenso a interiorizar conceitos e a fazer precocemente escolhas, nem sempre acertadas, que dificultam o papel dos professores ou tutores para uma reorientação atinente às suas necessidades e capacidades.
Embora muito se diga e se grite sobre a ignorância em que hoje se tropeça a todo o instante, em qualquer lado, seria curioso estipular critérios para a definir.
Se bem me lembro, no meu tempo de liceu, éramos obrigados a ler três ou quatro obras clássicas consagradas pelo Estado Novo -
A Morgadinha dos Canaviais de Júlio Dinis, Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett, O Auto da Alma de Gil Vicente e Os Lusíadas de Luís de Camões. Para além disso, só os alunos que escolhiam a área de letras tinham oportunidade de aceder a outros autores e obras.
As leituras hoje obrigatórias e recomendadas são muitas mais e de autores variados no tempo e no estilo, passando por Camões, Eça, Pessoa e Saramago.
Não existe aparentemente razão para que se diga que no nosso tempo é que era bom, só porque dávamos menos erros de escrita. Diria que não ousávamos dar erros de escrita para não nos tornarmos exímios na arte de apanhar reguadas.
Mas nunca tínhamos ouvido falar em OVNIS, em direitos humanos, em liberdade de expressão, em ideologias políticas, em higiene e saúde alimentar, em controlo de natalidade, em orgasmo feminino, em interrupção voluntária da gravidez, para só falar em coisas e situações já existentes.
Hoje, a maioria das pessoas conhece relativamente bem as técnicas para prevenir a gravidez ou as doenças sexualmente transmitidas, nelas incluída a SIDA. Já ouviu falar do genoma humano e em organismos geneticamente manipulados e bem assim as guerras que têm dado. Ninguém é alheio aos problemas que o nosso planeta enfrenta e à necessidade de recurso a energias alternativas.
Vai-se mais ao teatro e ao cinema, lê-se bastante mais e escreve-se muitíssimo e muitíssimo bem.
A Internet abriu as portas a todos os que têm vontade e, em muitos casos, vício de transpor para a escrita o que lhe vai na alma e é um espectáculo o que ali se encontra. Para não falar já nos escaparates onde o número de autores de língua portuguesa ocupa lugar de destaque.
A escrita aparece assim como uma voz levada pelo vento a todo o lado. Interventiva ou participativa, perigosa por vezes, mas viva.
No pouco tempo que resta para me fazer ouvir e para me envolver nestas questões de escrita, gostaria muito de lhe poder dar um cunho pessoal que a distinguisse dos demais, mas não consigo. Falta-me a arte e o engenho, mas também e sobretudo a roupagem que a cultura lhe empresta.
Fico-me assim pelo meu galho, embora tentando alcançar o que lhe está acima.
Penso, que por puro exercício físico!

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segunda-feira, junho 23, 2008

Transportes Públicos de Passageiros

Estive ligado alguns anos aos transportes públicos colectivos de passageiros, onde me foi possibilitado contactar a realidade que ali se vivia.
Houve tempo em que acreditei que os transportes fluviais estavam bem à frente nas preferências do utilizador pela comodidade, pela frequência, pela rapidez e pela segurança. Alguns inquéritos apontavam nesse sentido.
Hoje, as coisas parece terem evoluído de forma diferente e foi com agradável surpresa que constatei a pontualidade, a cadência, o conforto e a segurança da Rede/Expressos, dos comboios suburbanos onde a pontualidade ronda os segundos, onde a comodidade é bastante aceitável e a informação aos passageiros foi tomada a sério, nas plataformas de embarque.
O terminal multimodal de Sete Rios, permite agregar os modos ferroviários – comboios e metropolitano – assim como os rodoviários da Rede/Expressos, estabelecendo entre eles ligações fáceis e extremamente úteis para quem chega à Capital vindo do interior do país ou tão somente das regiões suburbanas.
É bom que Lisboa esteja bem servida de transportes públicos tal como constatei, mas era bom que essa realidade não se ficasse só por ali e se estendesse a todo o país.

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quinta-feira, junho 12, 2008

Não vá! Telefone!


Por compromisso havido, tinha que deslocar-me a Lisboa. Uma vez que tinha problemas com o carro, planeei a deslocação de comboio, no Intercidades.
Consultei a Internet e confirmei a saída de Évora às 0644h que parecia perfeito para quem tinha que estar na capital às nove.
Chegado à estação, uns dez minutos antes, sou informado na bilheteira de que não havia Intercidades desde o dia 6 de Junho. Indagado, o funcionário não me soube dar explicação para o facto de o site da internet da CP manter a indicação das carreiras referidas, permitindo até a aquisição de bilhetes por aquela via.
Parece incrível que seja interrompido um serviço destes e não haja aviso adequado junto do público, para não falar já na página oficial da empresa.
Por acaso a coisa remediou-se pois ainda fui a tempo de apanhar o Rede/Expressos das 0700h, que me permitiu chegar a horas a Lisboa.
Com este tipo de serviço quem pode apostar no transporte ferroviário, como solução para o excesso de trânsito rodoviário?
Em grande parte dos países europeus, os transportes suburbanos e mesmo as principais ligações entre cidades estão garantidas por comboios, com horários que servem as necessidades dos clientes e com condições de pontualidade e conforto que os torna não só alternativa como os faz assumir a preferência dos utilizadores.
Se não somos capazes de gerir comboios convencionais, com gastos relativamente pequenos, como iremos rentabilizar o TGV, de custos onerosos na construção de infraestruturas, de operação e manutenção?
Como queremos levar as pessoas a utilizar os transportes públicos se não lhes garantimos frequências e pontualidade, segurança e comodidade?
Como vamos poder acreditar nas empresas que nem se dão ao trabalho de manter os seus clientes informados e que não alteram em tempo oportuno, que em negócios é tempo útil, as informações disponibilizadas pela Internet?
Julgo que cada vez mais teremos de aceitar o slogan– "Não vá!
Telefone! "

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sexta-feira, maio 23, 2008

A Fundação


No âmbito do curso de Agro Bio que frequento, fomos visitar a designada Fundação, que corresponde à Fundação Eugénio de Almeida e que inaugurou, há dias, com a presença do Chefe do Estado, a sua magnificamente gigante e inovadora adega, preparada para poder receber e transformar qualquer coisa como dois milhões de quilogramas de uva.
Mas mais do que apenas uma adega fenomenal, é o facto de a Fundação ter transformado um espaço envelhecido e decrépito, constituído por barracões sem qualquer préstimo, num espaço aprazível com arruamentos, parques e edifícios de traça sóbria e funcional, de pórticos com cantarias de granito e áreas de trabalho amplas, incluindo cais de cargas e descargas. Nas traseiras, a nave imensa da adega, com as suas linhas de produção, armazenamento, engarrafamento e controlo de produção, incluindo laboratório apetrechado com as últimas novidades da tecnologia enológica.
Em frente, estende-se parte dos vinhedos, dividido em talhões de acordo com as variedades e castas em produção, que mais parece um jardim ordenado duma qualquer mansão.
Mais além, uma zona de exploração pecuária, que as condições meteo não permitiram apreciar de perto, onde se recriam e engordam reses para abate.
Foi-nos dada uma visão panorâmica das actividades da Casa, em briefing muito bem conseguido e conduzido por dois jovens colaboradores. As tecnologias das telecomunicações e a informática ao serviço das actividades produtivas e de controlo das operações de campo, que permitem acompanhar e desencadear a distância acções de rega e adubação e verificar em tempo real a existência de avarias ou alteração dos parâmetros pré-estabelecidos, minimizando perdas em tempo e custos de produção.
As técnicas produtivas de protecção integrada ocupam já cerca de 85% das áreas ocupadas com culturas arvenses de sementeira directa e intervenção correctora apenas se necessária, com agentes químicos menos agressivos para o ambiente.
Postos meteorológicos instalados em locais estratégicos permitem dosear as quantidades de água de rega sem desperdícios e de acordo com as necessidades culturais e a humidade dos solos à superfície e a várias profundidades.
O olival é explorado em sistema tradicional para a variedade de azeitona galega e em sistema subterrâneo de regadio “gota a gota” para as outras variedades.
As linhas, tanto do olival como da vinha, são tratadas contra os infestantes com química adequada e os espaços entre elas, relvados pelo corte da erva com equipamento próprio, que espalha os produtos desse corte que se compostam com o tempo e enriquecem a protecção vegetal dos solos, permitindo a deslocação sem atascanços sobre eles de equipamento pesado, mesmo em condições meteo complicadas.
Na vertente pecuária, foram indicados alguns números e técnicas de produção que já levaram o nome da Fundação a pódios de fóruns internacionais, com cavalos lusitanos e reses xarolesas.
Produzem também reses de raças alentejana e cruzada com xarolesa, borregos da raça “merino branco” e porcos de raça alentejana.
Todo o processo produtivo é acompanhado por empresa externa à própria Fundação e às associações de produtores a que está ligada, garantindo, dessa forma, independência dos resultados da apreciação, que servem para o orientar no sentido da qualidade exigida.
Não sendo a Fundação uma empresa que persiga lucros como fim único, necessita destes para dar sequência aos seus programas de apoio a instituições de solidariedade social e participar em projectos conjuntos de investigação, com a Universidade de Évora ou com outras entidades públicas e privadas em sistema de parcerias.
O pessoal do “terreno”, tanto da parte vitivinícola como de adega, encarregou-se de nos mostrar ou explanar em mais pormenor os processos e práticas de produção da vinha e do vinho, que suscitaram dos atentos visitantes perguntas a que não podia faltar o interesse pessoal, ou não se tratasse de produto tanto do seu agrado – o Vinho.
Resumindo a visita, diria que terá sido das melhores safras deste curso e constituiu, sem dúvida, um ponto alto do mesmo.
É pena que o sistema empresarial português não permita mais “fundações”.

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segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Agricultura e alimentação naturais - O Vento da Esperança - ParteII

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Inspirados e apoiados em alguns princípios teológicos, ligados à simplicidade de vida, a aspectos alimentares e ao tratamento infligido a todos os seres vivos nesta forma de desnaturalização do ambiente, alguns dos movimentos de opinião, fizeram-se eco disso um pouco por todo o mundo, desde os princípios do século passado, com maior ênfase para os finais do mesmo século, por incorporação de conhecimentos tecnológicos de suporte.
A contestação passou então a ser suportada por argumentos técnico-científicos e a impor-se a entidades e instituições, para ser finalmente aceite como alicerce duma nova era. Deste modo, a própria CE não teve outro remédio senão integrar nos seus projectos e orçamentos essa nova realidade.
Assim nasceram as, hoje designadas, agriculturas biológica, ecológica, orgânica e integrada, esta última servindo de ponte entre aquelas e a agricultura industrializada, a combater.
Têm vindo a ganhar adeptos, mas esbarram sempre no problema de dimensão das explorações e na rentabilidade da produção, na existência de mercados e nos mecanismos de distribuição.
O princípio comum a todas é o abandono da utilização de químicos de síntese nas práticas agrícolas.
O entendimento é de que a fertilização dos solos deverá ser adquirida e mantida de forma natural, com a eventual adição de matéria orgânica isenta de resíduos químicos e de que a resistência das plantas às pragas deverá ser conseguida através da robustez das mesmas, conseguida com espécies indígenas, com práticas de cultivo adequadas, excluindo lavouras profundas e com rotatividade de culturas.
Isso, impõe conhecer e respeitar os ciclos de vida de plantas e animais, que obrigatoriamente deverão integrar as explorações. Estimular a biodiversidade da exploração agrícola e do seu meio envolvente, como forma de garantir equilíbrios biológicos, capazes de evitar pragas e doenças.
É ainda objectivo último, senão primeiro, de que este tipo de agricultura deverá garantir aos seus praticantes produções em quantidade suficiente e de qualidade elevada, capazes de lhes garantir satisfação e independência, assim como condições de trabalho seguro e saudável.
Claro que, ligados a estas práticas agrícolas, outros aspectos não menos importantes são perseguidos como objectivos, nomeadamente o uso preferencial de energias renováveis, a não poluição de solos e linhas de água, o uso de matérias de embalagem biodegradáveis e recicláveis, o uso parcimonioso e responsável da água e da vida nela existente, dar aos animais da exploração condições de habitat tão próximas quanto possível das naturais, permitindo-lhes satisfação das necessidades básicas e comportamentos naturais também.
Produzir saudável para comer saudável, poderia ser o slogan publicitário deste tipo de agricultura.
As tecnologias de apoio deste tipo de agricultura são complicadas, impondo agricultores idóneos, com formação adequada e com sensibilidade dirigida para a problemática envolvente, criando um clima de confiança nos clientes, que garanta a sua fidelização.
Para vender este tipo de produto, é preciso comprá-lo primeiro.
Para comer produtos naturais, há que pensar natural, há que viver natural, há que acreditar na Natureza e na sua enormíssima capacidade de regeneração.
Há que pensar também que o nosso conhecimento sobre ela é limitado pelo estado actual da ciência e tecnologia, que podemos estar a subestimá-la ou pelo contrário a sobrestimá-la.
Dum modo ou de outro, se a respeitarmos, não devemos temer pela nossa atitude e, a haver um criador, certamente estaremos mais perto dele e de levar um sorriso às gerações vindouras.

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domingo, fevereiro 24, 2008

Agricultura e alimentação naturais - O Vento da Esperança - Parte I

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À semelhança do que acontece na política, quando se quer contrariar uma tendência e não existem forças para o fazer, por interesses estabelecidos, por clubismo ou apoio efectivo da mesma, só há um meio - arranjar um movimento que vá ganhando voz e projecção e tentar levar os mais cépticos a aderir, ganhando energia capaz de destruir convicções estabelecidas.
Foi assim que se criaram movimentos ecologistas contrariando a inércia do “estado de coisas”, visando evitar a destruição sistematizada dos recursos naturais e do ambiente, através da sensibilização, do arregimentar para a luta, primeiro, e da própria luta, depois. Muitos desses movimentos tomaram voz nos parlamentos, transformados em partidos políticos ou neles inseridos.
Foi assim, também, que apareceram movimentos de opinião oponentes à forma como a agricultura estava e está a ser conduzida e que visa apenas a obtenção de resultados imediatos, esquecendo todo o meio envolvente em que a mesma se desenvolve.
Todas as políticas agrárias caminhavam no sentido da redução de custos, inicialmente conseguidos através da dispensa de mão-de-obra, pela mecanização.
À medida que a tecnologia foi evoluindo, as explorações especializaram-se e criaram-se verdadeiros cartéis - do café, do tabaco, do algodão, da cana-de-açúcar, da beterraba açucareira, oleaginosas, cereais, etc.
Foram atribuídas quotas de produção aos países para fruta, produtos hortícolas de regadio e outros.
Foram encorajados os agricultores a abandonarem culturas tradicionais que praticavam nos seus países.
Foram mesmo encorajados através de subsídios para abandonarem de todo a sua actividade.
A fuga dos campos em Portugal, reforçada com a fuga à guerra colonial, criou um vazio nunca mais colmatado.
A pastorícia acabou, a erva e os matos tomaram conta das serranias e dos campos. Os verões mais agrestes aproveitam destas facilidades e transformam paisagens de sonho em infernos dantescos, com os incêndios a grassar e a tomar conta das matas.
As monoculturas repetidas sugam todo o sangue dos solos, forçando fertilizações e tratamentos, promovendo produções artificiais.
Hoje comem-se proteínas, gorduras, sais minerais e vitaminas, salteadas de resíduos químicos com o invólucro de alfaces, cereais, leite e outros produtos de origem animal e vegetal.
Os campos abandonados, os solos erodidos, a Natureza violentada.
Pensou-se que isto não aconteceria nunca, mas está à vista o resultado dessa maquinação tecnológica.

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segunda-feira, fevereiro 18, 2008

As Prioridades

Já há alguns anos que uma calamidade parecida com a que ocorreu esta noite na área metropolitana de Lisboa, havia acontecido com resultados muito mais trágicos dos agora verificados.
Por outro lado, todos os anos acontecem inundações, sempre que chove um pouco mais do habitual, nas zonas mais baixas e alagadiças como são os casos de Odivelas, Sacavém, Frielas ou Cruz Quebrada.
Os rios e as ribeiras que lhes passam junto, acabam por extravasar devido, entre outras coisas, à sua falta de limpeza, já constituindo um hábito para as populações residentes.
Os prejuízos acumulados ao longo dos anos dariam, certamente, para já ter resolvido de vez estes problemas que parecem querer eternizar-se, como tudo de mal neste país. As vidas ceifadas por este tipo de eventos, ficam a marcar a inépcia de autarcas, de serviços públicos e de governos em dar solução às carências reais das populações, pelas quais se tornam responsáveis ao serem eleitos ou nomeados para o desempenho dos diversos cargos.
Não chega dizer, como o fazia um responsável autárquico, de que o assunto já havia sido equacionado e abandonado devido ao seu elevado custo.
Não existem fundos estruturais ou lá como se chamam para este tipo de gastos, mas existem com este ou outros nomes, para “megaloprojectos” completamente desinseridos das necessidades básicas dos cidadãos. Para não falar de outros, clamo apenas o TGV e os não sei quantos estádios de futebol construídos para o Euro, alguns dos quais nunca mais tiveram gente para os encher ou, tão somente, para os usar em termos desportivos.
É uma pena que a tanta água hoje chovida não lave a consciência dos responsáveis pelo estabelecimento de metas e prioridades no dispêndio dos dinheiros públicos, a favor dos seus concidadãos, contribuintes e eleitores.

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segunda-feira, janeiro 28, 2008

O Vigésimo Premiado


Bem que eu não queria falar de política e muito menos nacional. Seria porque estava tudo a correr bem. Porque finalmente Portugal estava a acontecer!
Mas não! Está tudo na mesma, para não dizer pior, porque se goraram expectativas. Porque se quis mostrar serviço muito depressa. E não aos portugueses. Aos tipos de Bruxelas. Que os números estão certos e que é melhor morrer à fome do que apresentar as contas erradas ou mal feitas.
Que somos bem comportados e que sabemos fazer as contas, bem feitinhas. E que até estamos a morrer melhor. Morremos em casa ou a caminho do hospital. Já não se morre nos hospitais portugueses.
Já nem é preciso frequentar as escolas para se ter diplomas, agora com as ”Novas Oportunidades”.
Mas isso já nós sabíamos há muito tempo. O exemplo já vinha de cima. Só que agora, está institucionalizado. O insucesso escolar já era.
O seguidismo mantém as mentes toldadas. Como é possível os socialistas reverem-se neste governo? Havia coisas erradas? Claro que havia e era necessário alterar. Mas para melhor!
Porque queremos nivelar sempre por baixo?
Ninguém contesta que era preciso equilibrar as contas, mas não desta forma e à custa de quem menos pode ou de quem menor capacidade de reivindicação tem – os trabalhadores do estado e os trabalhadores por conta de outrem, de forma generalizada.
Os países são constituídos por pessoas. Que nascem, vivem e morrem. Que devem nascer num meio apropriado e acolhedor. Que devem crescer e desenvolver as suas faculdades de forma equilibrada entre a família e a escola. Que devem contribuir com o seu trabalho produtivo e válido para ajudar a criar a riqueza, que deve ser redistribuída de forma criteriosa de maneira a manter uma boa assistência nos cuidados de saúde, a garantir equidade e celeridade na aplicação da justiça e proporcionar uma velhice calma e sem sobressaltos.
Se para isso é preciso ter atenção aos números, pois que se atente neles, com seriedade e de forma clara e transparente, mas sem que eles façam preterir as pessoas, que todos nós somos.
Dantes, era a economia que condicionava a política, através dos grandes interesses empresariais. Hoje, são os números da UE e a grande finança, de que os últimos eventos são bem uma mostra da promiscuidade que se estabeleceu entre ambos.
Que nos vendam o número da “sorte grande” e não o “vigésimo premiado” do conto do vigário.
Os maiores cegos, são certamente os que não querem ver!

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quinta-feira, janeiro 24, 2008

Levados, levados, sim!


Curiosamente, Sócrates tem a virtude de trazer de regresso à política muita gente que dela se afastara por enfado e desleixo cívico.
Claro, que se pode dar ao luxo de nem sequer ouvir as críticas, de rever políticas, de fazer mudanças no executivo. Mas sabe que o espera em cada decisão que tomar, um combate, um dedo apontado.
Não se livra de ser o Governo que mais medidas impopulares tomou em nome do povo, que constitui grande parte do seu eleitorado.
As suas bases de apoio devem estar, pois, em desequilíbrio.
Nenhum partido liberal teria tomado tantas e tão gravosas decisões políticas em tão pouco tempo.
Resultados que justifiquem tão grande número de decisões de contenção, onde estão? De tudo, em tempo de crise, resta apenas a inabalável teimosia do senhor, aliada ao seu optimismo militante.
O serviço nacional de saúde, fruto de lutas travadas pelo partido socialista, está de pantanas pela mão de outro dito socialista, a economia recomenda-se ao dito serviço de saúde e a justiça para lá caminha, com os processos pendurados à espera de empurrão para o caixote do lixo, com os criminosos à tripa forra.
A educação é o que se vê e muito mais o que se ouve. Há que esperar que as “Novas Oportunidades” o sejam de facto, para tirar, pelo menos”in nomine”, os portugueses dos índices de analfabetismo galopante, em que ameaça caírem.
Da Defesa Nacional e dos Militares não dá sequer para falar, porque as asneiras têm sido umas a seguir às outras, sem ponta por onde se lhe pegue. Com avanços e recuos tácticos e sem uma estratégia definida e clara.
Uma espécie de guerrilha lançada contra as forças convencionais de defesa, com trilhas armadilhadas, acção psicológica e tentativa de desorganização da formatura. Submarinos de bolso infiltrados em águas interiores.
O Parlamento tomado, as oposições desordenadas, os sindicatos sem força, os tribunais sem capacidade de acção, lá vamos cantando e rindo ou gritando e chorando, tanto dá.

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