segunda-feira, abril 19, 2010

So you think you can write*

Imagem daqui
Todos temos a mania de um dia poder passar a papel aquilo que são as nossas garatujas, como forma de nos eternizarmos.
Só que o papel é cada vez mais escasso e não deve ser conspurcado com falsas expectativas e muito menos para servir interesses pessoais e mesquinhos.
Esta porta aberta do tamanho dum buraco negro, a Net, é palco suficiente de exibições nem sempre felizes, mas de alguma forma gratificantes para quem gosta de partilhar opiniões, maneiras de ser e de estar, ilusões e utopias.
As designadas redes sociais, têm hoje uma procura desenfreada, dando escape às desilusões permanentes a que estamos sujeitos na nossa teimosia em subsistir às agruras do dia a dia.
São, como tudo nos dias de hoje, um negócio maluco para os seus mentores.
Fazem a vez daquilo que no Alentejo se designava por cantinho do lume, reunindo à volta do brasido nas longas e duras noites de Inverno, familiares e amigos recontando estórias e inventando manhas que permitissem sobreviver ao dia seguinte.
As estórias estão todas já contadas e, duma forma geral, bem! Só temos a possibilidade de lhe acrescentarmos alguns toques pessoais, como se fosse uma assinatura ou um perfume. Como os cães que fazem o seu xixi, em tudo que é sítio, para assinalar a sua passagem ou delimitar a sua área de influência.
Num livro, a que recentemente tive acesso por intermédio de um amigo, com um título fabuloso – A Luz da Cal, ao canto do lume** – descobri que a maior parte das estórias que julgávamos propriedade exclusiva das nossas infâncias ou do nosso imaginário colectivo alentejano ou mesmo nacional, tem origens longínquas quer na distância quer no tempo, remontando muitas delas, com nomes ligeiramente diferentes, a épocas remotas e povos com histórias, culturas, religiões e línguas que nada têm a ver com a nossa.
Não havia Net, não estava nalguns casos facilitado o acesso à escrita e muito menos à leitura e tudo se passava de boca em boca, por cantigas, contos, lendas e estórias. Desde sempre a vontade de querer fazer chegar aos outros a nossa visão do mundo nem que fosse por linguagem gestual.
Por este canto me fico, com a noção de que é mais do que suficiente para as minhas aspirações de escrita, ou melhor, de registo.
Notas:
*So you think you can dance – Título dum concurso televisivo Americano sobre dança moderna
**A Luz da Cal ao canto lume – tradição oral do Concelho de Mora, da autoria de Joaninha Duarte

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quinta-feira, abril 08, 2010

Uma certa forma de olhar

Será que o olhar vê?
Julgo que não!
Olhar é como filmar. Só depois de fazer rewind se consegue ver o que o olhar reteve. Às vezes isto é quase em simultâneo, outras nem por isso.
Julgo que a maior parte da vida se passa sob o nosso olhar sem que nos quedemos um segundo a mirá-la, como talvez merecesse. Depois, já era...
Quem o consegue fazer, normalmente deixa esteira como um cometa ou uma chuva de estrelas. Estou a lembrar-me dos artistas plásticos e dos poetas que registam com um pincel, cinzel ou pena o que o seu olhar fixou e a sua alma viu.
Quando a vida se torna mais cara como o pão nas padarias ou a cotação do petróleo brent, o olhar torna-se mais atento, mais rápido, realçando cada imagem, cada gesto, cada emoção, cada halo de vida.
Porém, a sofreguidão de tudo olhar e de tudo querer ver também cega, como uma luz branca que não deixa ver a cor nem a forma. O equilíbrio perde-se e alma enche-se de manchas sem sentido nem razão.
O Sol brilha todos os dias, mas só para quem o puder olhar e ver.

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