quinta-feira, abril 08, 2010

Uma certa forma de olhar

Será que o olhar vê?
Julgo que não!
Olhar é como filmar. Só depois de fazer rewind se consegue ver o que o olhar reteve. Às vezes isto é quase em simultâneo, outras nem por isso.
Julgo que a maior parte da vida se passa sob o nosso olhar sem que nos quedemos um segundo a mirá-la, como talvez merecesse. Depois, já era...
Quem o consegue fazer, normalmente deixa esteira como um cometa ou uma chuva de estrelas. Estou a lembrar-me dos artistas plásticos e dos poetas que registam com um pincel, cinzel ou pena o que o seu olhar fixou e a sua alma viu.
Quando a vida se torna mais cara como o pão nas padarias ou a cotação do petróleo brent, o olhar torna-se mais atento, mais rápido, realçando cada imagem, cada gesto, cada emoção, cada halo de vida.
Porém, a sofreguidão de tudo olhar e de tudo querer ver também cega, como uma luz branca que não deixa ver a cor nem a forma. O equilíbrio perde-se e alma enche-se de manchas sem sentido nem razão.
O Sol brilha todos os dias, mas só para quem o puder olhar e ver.

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

O sol frio banha a charneca verdejante de sombra húmida, pegajosa, caracolenta.
No montado desenha fantasmas no chão, junto das boletas e dos porcos.
Faz de mim um embrulho velho, em papel pardo.
Não me tira da cabeça as nuvens que lá se vêm instalando, à sorrelfa, como lesmas ou carraças agarradiças e nojentas.
E vai continuar, tal qual a crise, a gripe das aves ou a doença das vacas loucas.
Sol frio como o cinismo dos políticos e dos ingleses. Frio, como as achas que não ardem nas lareiras dos pobres, como a solidão dos poetas, como epitáfios.
Sol frio que parece nascer de dentro de nós.

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terça-feira, dezembro 09, 2008

Vaga Lume


Até há muito pouco tempo só me preocupava com as condições atmosféricas na medida em que elas me impunham uma determinada forma de vestir, me incomodavam ou me apraziam.
Hoje, tenho delas uma visão um pouco diferente que me faz sorrir ou acentuar as rugas da testa, que assenta na forma como vou organizar o”meu dia de trabalho”, ou de como o tempo que vai fazendo influencia de modo favorável ou não as minhas expectativas de “produção” – horto frutícolas e de jardinagem.
Sei hoje que, com a ventania que está, seria um óptimo dia de pombos nos locais onde se encontrarem e houver possibilidade de os caçar. Sei também que este vento retira a humidade que os últimos dias colocaram no solo e que, a continuar assim, me vai impor uma rega a curto prazo no jardim e no nabal. Também, provavelmente, estas rabanadas de vento são capazes de partir ou esgalhar algumas árvores de enfeite, como o pinheiro nórdico e a jovem falsa pimenteira.
Tudo isto, no entanto, vai enchendo o meu dia a dia, na contemplação das coisas simples e boas que a Natureza e a Vida nos vão oferecendo. Um luxo nos tempos que correm. Sobretudo porque, para a maioria das pessoas, eles correm depressa demais, não lhes dando tempo a contemplações que são apanágio exclusivo dos afortunados ou daqueles que nada fazem.
Puro engano!
Se deitarmos um olhar inquiridor sobre aquilo que nos rodeia, iremos certamente encontrar alguma coisa boa, que nos escapa se o não fizermos.
Mesmo na noite mais escura há que procurar um pirilampo que nos alegre e apazigue, sob risco de não mais vermos o nascer do sol que nos alumie e aqueça.

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sexta-feira, julho 25, 2008

O Pêndulo


A retoma da minha actividade jardineira e de apoio ao pomar e vinha, faz com que chegue ao fim do dia estoirado e sem vontade nem jeito para partilhar convosco as minhas preocupações e angústias, bem como aquilo que vai acontecendo à nossa volta susceptível de nos poder influenciar o dia-a-dia.
Estou convencido que devemos ser os maiores produtores de lixo aqui do burgo, sobretudo proveniente das actividades acima descritas.
Não só enchemos diariamente os contentores das redondezas como contribuímos de forma categórica para garantir serviço a uma camioneta que todas as segundas feiras vem carregar os monos e outros lixos que não devem ser metidos nos contentores nem queimados nesta época do ano.
Toda esta actividade vai garantindo também a manutenção da nossa forma física e ocupando um tempo que teima em fugir-nos.
Não sei muito bem durante quanto tempo ainda seremos capazes de manter este ritmo, mas estou em crer que, com algumas mudanças nas técnicas e nos equipamentos, que nos permitam aligeirar o gesto, talvez possamos continuar a deliciar-nos com estes pequenos prazeres de estar mais perto da Natureza e de com ela partilharmos, em harmonia, o pouco tempo que nos for dado viver.
Qual leão-marinho, tenho distribuído o meu tempo entre a terra e o mar, na busca de equilíbrios e temperos e no desvendar dos mistérios que cada um encerra.
O mar sempre me pôs por companhia a saudade dos que deixava e a terra sempre me trouxe uma enorme vontade de ao mar tornar.
Como as marés.
Como um pêndulo.
Cá e lá. De lá para cá.

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domingo, junho 15, 2008

Vazio ou Espaço Não

Imagem daqui

São muitas coisas ao mesmo tempo para gerir, que me têm mantido afastado deste espaço: eventos funestos, gripe, obras a que é necessário dar assistência, rotinas jardineiras e hortofrutícolas e por fim os futebóis em que nos vamos deixando ir.
Não é fácil manter este diálogo, ou monólogo não sei bem, com a regularidade que gostaria, com o interesse que desejaria tivesse, com a irreverência a que a mim próprio já me habituei.
Costumava adornar o espaço com animações fotográficas, dar-lhe música ao meu gosto, moderna ou nem tanto, criar-lhe intervalos menos prosaicos com memórias ou rimas gastas pelo tempo.
Não vão as coisas saindo como quero, não me posso dar ao luxo de lucubrações sobre nada ou coisa nenhuma, mas quase acaba sendo o que estou agora fazendo.
Houve alguém que disse que “é preferível dizerem mal de mim do que nada dizerem”. O nada é a ignorância da pessoa ou do que quer que seja.
Mas, para que as pessoas ou as coisas não caiam no esquecimento é preciso que vão aparecendo ou que aconteçam.
Por outro lado, há quem diga que só se aprende a escrever, escrevendo. Ora, o que tem acontecido ultimamente comigo é que tenho a sensação de que, cada vez, escrevo pior. A prosa não me sai fácil e ligeira. Os assuntos não me atraem. Os interesses estão centrados nas preocupações do dia a dia e não me dão espaço de análise que permita, ao menos, dizer mal de alguém ou de alguma coisa.
Hoje vou vingar-me na Selecção! Não porque perdeu, mas porque não fez nada para ganhar!
Está, como eu hoje, vazia!

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segunda-feira, maio 19, 2008

Os Jogos da Vida

Imagem daqui
As trapaças e tramóias que a vida impõe, remetem-nos para o desconforto da incompreensão e do desalinho aparente entre o certo e o errado, o bom e o mau, o fácil e o difícil.
A vida obriga-nos permanentemente a escolhas, a maioria delas a terem que ser feitas em tempo oportuno, sem elementos de apreciação suficientes. Os erros por isso aparecem como resultados aceitáveis embora, muitas vezes, de consequências desastrosas.
Os contornos entre o bom e o mau são traçados com canetas de bicos tortos e mal afiados e com tinta cinzenta, confundindo e comprometendo as opções.
As tarefas que se nos põem de fácil maneio, acontecem por vezes de difícil execução, mau grado o traquejo que delas possamos ter.
Talvez por tudo isso haja necessidade de justificar o que não entendemos e se nos escapa, como arte divina ou infernal, desculpando assim a nossa ignorância e falta de atento para o mundano que nos cerca e nos sufoca.
Morrer é um dos aspectos da vida que nos assusta pelo desconhecido, pela impossibilidade de experimentação prévia, pelo desconforto do frio eterno.
Aparece, às vezes, como ponto final abrupto duma vida promissora, termo desejado dum estado de sofrimento continuado ou simplesmente como epílogo duma vida preenchida.
Em qualquer dos casos é o encerramento e arquivo dum dossier repleto de coisas conseguidas, de desejos satisfeitos, de sonhos concretizados, de caminhos percorridos a par de outros tantos por concluir, por arrumar e sobretudo por entender.
Manuel de Oliveira aparece-nos como um caso que foge completamente ao nosso entendimento, quando aos cem anos se impõe, a si mesmo, projectos a realizar nos próximos anos.
É uma espécie de desafio ou, se quisermos, uma forma diferente de jogar estes jogos da vida!

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segunda-feira, maio 12, 2008

Fado Sentido


As crises costumam trazer gente para os transportes públicos, que se aproveitam da mesma para limpar a ramela acumulada ao longo do tempo, sem grandes esperanças de mudança. Não será sina, mas é certamente sorte macaca.
Pois bem, parece-me, mas posso estar enganado, que desta vez nem os transportes públicos estarão a beneficiar da dita, face àquilo que me foi possível observar numa ida rápida a Lisboa.
Não tive problema de filas para chegar aos barcos da TT nem dificuldade em arranjar lugar no parque. Em Lisboa o Metro, em hora quase de ponta, não obrigava aos empurrões, tão do gosto dos carteiristas e dos “apalpadores de cus”.
Estou em crer que maior parte dos lisboetas está de “férias grandes”.
Será fruto da revolução tecnológica em curso? Serão as “máquinas inteligentes” distribuídas pelo governo que começam a dar o seu contributo decisivo para “aliviar” os transportes públicos, pondo as pessoas a “trabalhar” em casa?
Mas a baixa lisboeta estava cheia de turistas. Grandes, velhos e mal vestidos. À procura dum Verão prometido que não encontraram e tiritando de frio. Falando línguas esquisitas, que bem poderiam ser nórdicas como do leste.
Na Rua Augusta, os eternos índios andinos, tocavam as suas músicas bonitas embora já gastas pelas inúmeras apresentações em público, ali, nas feiras ou nas praias. Não sei se ainda são os mesmos ou se já serão os netos dos que primeiro descobriram esta mina lusitana.
De qualquer forma, apesar de gostar muito do sítio que escolhi para passar a maior parte do meu tempo, é sempre um prazer redescobrir Lisboa, agora com o olhar transtagano mais exigente em termos de procura, vasculhando os recônditos da sua alma ribeirinha, empoleirada sobre o Tejo.
Mais do que ouvi-lo, gosto de lhe sentir o fado!

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terça-feira, abril 08, 2008

Cinzento...

Imagem daqui
De vez em quando faz bem um dia assim cinzento. Dá para pôr em dia tarefas adiadas pelo sol e pelo bom tempo. Mas não tem a luz, a cor que nos enfeita a vida…
Põe-nos pensamentos cinzentos também. Ou será do livro que acabei de ler “Bissau em chamas”? Coitada da Guiné que não conseguiu encontrar ninguém melhor do que o Nino para substituir o Nino.
A Guiné entalada entre francófonos, não atina com a picada. Não basta a manta de retalhos culturais das suas diferentes etnias, como ainda tê-las divididas por fronteiras artificiais, político-administrativas. Nalguns casos, resultado de negociatas pouco inteligentes de políticos sem escrúpulos. Famílias que num lado falam Francês e no outro Português.
O nacionalismo da guerrilha não foi suficiente para horizontalizar interesses, credos e tradições. Fazer da luta armada a única tradição comum, é violência demasiada.
A riqueza na Guiné parece não abundar para além da tenacidade e vontade das suas gentes.
Se assim fora, não lhe faltariam tutores empenhados.
Lá como cá, o tempo continua cinzento.

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sexta-feira, abril 04, 2008

O Desvio da Agulha


Estou de férias!
Perguntarão se não o estou sempre. Eu aceito o remoque. Estou de férias da pesca e da caça. Já dá para entender.
Isto tem desorientado o meu calendário virtual e a agulha padrão, já se me baralharam as referências. Já não sei às quantas ando.
Oriento-me agora mais pelas tarefas de jardinagem e hortícolas, que são como “aquelas coisinhas que não têm dia nem hora”, parafraseando o anúncio. A rega não dá feriados a partir de agora. Um pequeno descuido e é a morte do artista, isto é, dos viveiros de aromáticas, de melancia e melão, da relva e das plantas envasadas.
Retomei, depois dum pequeno interregno, as minhas caminhadas matinais entremeadas com pequenas corridas, assegurando que não pesarei cem quilos tão depressa e, por outro lado, ajudando a uma mais adequada circulação sanguínea.
Não posso variar muito os trajectos por causa do piso e dos acidentes do terreno, evitando dessa forma o dar cabo do resto das articulações.
Mas basta de lamúrias. Nem tudo é assim tão mau. Começo a apreciar a comida, coisa que nunca tive tempo para fazer. Comida simples e saborosa. Com muitas saladas e aromáticas, queijo fresco e pão. Pão a sério. Que me mata, mas a que não resisto. Saltiteio entre o pão alentejano da Confraria do Pão de Beja, com o da “Fermentopão” também de Beja e pão de mistura, “Pãosão”, do Museu do Pão. Não sei de qual gosto mais.
Descobri também um vinagre de framboesa que dá às saladas um gostinho irresistível. É óptimo!
Aproveitei também para ler um livro que adquirira, há já algum tempo, mais por ser escrito por dois camaradas e amigos e por estar directamente relacionado com o tristemente célebre episódio do Golpe Militar de Ansumane Mané, na Guiné, em 1998 do que propriamente como leitura de deleite, a que agora me dou mais.
Mas, para espanto meu, encontrei nele não apenas o Relatório de Estado Maior, documento rigoroso com que já contava, como também uma forma de apresentar os factos, os protagonistas e a trama político-mediática diferente, em jeito de crónica, embelezada por uma pena sensível.
E vão sendo assim os meus dias de não sei o que fazer, nesta início de Primavera como eu, dividido entre a chuva e o sol, entre o frio e o calor.

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quarta-feira, março 26, 2008

O Raio Verde

Sempre gostei de largos horizontes, de janelas abertas, da companhia das estrelas e dos faróis.
Na paisagem como na vida, é preciso procurá-los. Os meus espalharam-se um pouco pelo mundo, mas também se abriram onde nasci, espraiando o olhar pela charneca de todas as cores, na busca duma sombra acolhedora e repousante.
Hoje de volta a ela, sinto-lhe o pulsar enfermo da indiferença a que foi votada. As cores desbotadas de mil prantos enfeitam-lhe o entardecer brumoso.
Os ventos da destemperança sufocam-lhe os anseios de fortuna, a que se arrola por direito.
Já não se encontram papoilas que não seja nos valados. Os grilos substituídos pelos ralos, em jeito de choro fúnebre, lançam os seus trinados lúgubres pela campina deserta.
No mar, um pouco como na vida só existe horizonte virtual. No mar assim como na vida, é preciso fazer baixar as estrelas até ao horizonte, para que se banhem nas águas da verdade e sirvam de referência nas rotas do futuro. Só desse modo elas servem para algo mais do que descobri-las e admirá-las. Só desse modo se cumprem na nossa exaltação com supremo agrado.
Perscrutar o horizonte, ver nele despontar o sol nascente, o mergulhar da estrela mais brilhante ou ainda o tremeluzir dum farol de esperança é tarefa de porfiada procura, diferente na forma, sedutora na incerteza, incómoda na postura e raramente compensadora nos resultados.
Alargar o horizonte, impõe subir ao cesto da gávea ou do traquete ou ainda aos sobres, para descortinar porto de abrigo ou simplesmente assistir ao deitar do raio verde no ocaso da nossa imaginação.

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terça-feira, março 11, 2008

Universidade da Vida


Uma das prerrogativas dos velhos é o facto de já terem vivido muito e, como tal, terem aprendido muito, por muito burros que o tenham sido.
Quando a vida é aquela que quisemos viver, quando nela corremos alguns cantos do mundo, quando tivemos a oportunidade de a viver com grande intensidade, então estamos formados pela Universidade da Vida, em Cidadania do Mundo.
O canudo está na alma e pode ser lido em cada ruga da cara. A sabedoria é a que vamos aplicando diariamente, fermentada pelo calor humano que nos rodeia e servida com a temperança da idade.
As estórias que contamos, mesmo se imaginadas, mais não são do que reflexo do que já fomos e já vivemos.
Podemos ter mais ou menos jeito para pintar o quadro, mas a paisagem é facilmente reconhecida como já vista ou sonhada.
Os personagens, ainda que ficcionados, podemos vê-los todos os dias passar ao nosso lado na rua, olhá-los na TV ou reconhecê-los nos escaparates dos jornais.
Por muito que queiramos inventar, mais não conseguimos do que inventariar.
Em Macau, pouco tempo depois do 25 de Abril, conheci um médico do Exército, que deixou escapar esta pérola de sabedoria – “Ainda ontem era fascista e querem que hoje já seja comunista? Deixem-me ao menos ler os livros!”
Pois é! Os livros que já lemos e, sobretudo, os que não conseguimos ler! Por falta de tempo, por falta de vontade, por não os sabermos ler!
Já pensaram que a maioria dos livros que se publicam, são-no em línguas de que nem sequer conhecemos os símbolos gráficos ou os ideogramas que as materializam na escrita, que não tiveram tradução, ou mesmo que a tenham tido, não chegou ao nosso conhecimento a sua existência.
Se repararem, há medida que o tempo passa por nós as crispações vão-se atenuando. Porque há mais elementos de informação para apreciar as situações e, por conseguinte, as coisas não se nos apresentam só como inconcebíveis, intoleráveis, inadiáveis e tantos outros qualificativos começados por "in".
A Universidade da Vida ensinou-nos a reconhecer o mérito e o demérito de tudo o que nos rodeia, como forma de defesa e sobrevivência.
Havia velhos lobos do mar que à aproximação de terra já lhe sentiam o cheiro muito antes que a vista a alcançasse.
Os velhos são, pois, uma reserva de conhecimentos que a maior parte das civilizações milenares, como as orientais, respeita e ouve sempre que não encontra nos manuais as respostas de que precisa.
Funcionam aí, como uma espécie de memória colectiva, que há que preservar.
Os ocidentais, atiram-nos para os asilos, para a ignomínia do anonimato mais atroz e só deles se lembram quando querem os seus votos ou constar no seu testamento.
Julgo que o meu diploma da UV, não me confere mais do que um passaporte para esse esquecimento colectivo.

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terça-feira, janeiro 22, 2008

Terapia do Fogo

Imagem daqui
Anos de papeis acumulados. Boletins de vencimentos, facturas da água, da electricidade, do gás. Extractos bancários e comunicações dos seguros.
Para o que as árvores são cortadas. Para nos fazerem a vida negra, com obrigações que nem sempre conseguimos suprir.
Deviam ser uns vinte quilos de papel sujo de tinta que as chamas devoraram.
Junto com essa papelada foi queimada a ramagem que resultou da poda das árvores de fruto. Cerejeiras, ameixeiras, pessegueiros, macieiras e pereiras foram “tosquiadas”, preparando-se para mais um ciclo de produção.
Este pulsar do tempo que no campo se mede assim, sem necessidade de recurso a relógios nem a psicólogos.
Cumpre-se o “borda d’água” e inspira-se fundo o cheiro da terra. Os problemas enterram-se ao arroteá-la.
O chamaréu só terminou já com “médios” acesos e com a lua a anunciar-se redonda que nem um tamanco.
Hoje, é dia de lobisomens e de contas saldadas pelo fogo libertador.
Nas notícias, as bolsas também parecem estar a arder.

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segunda-feira, novembro 26, 2007

...de sequeiro, digo eu!

As coisas que um marinheiro de sequeiro se vê obrigado a fazer! Ele é fazer vinho, ele é apanhar azeitona, ele é podar a vinha, ele é…
O que é certo é que já fiz de tudo um pouco ou um pouco de tudo, não sei bem. Se me dissessem, não acreditava. Sempre me julguei incapaz ter outra actividade diferente da que, por opção, escolhi muito cedo.
Não tive uma carreira orientada para um fim específico como alguns dos meus camaradas. A culpa terá sido minha. Percorri quase todas as situações possíveis, com excepção daquela para que me sentia mais habilitado, talvez. Não me lamento, nem me censuro. Acho que é a vida que se encarrega de ditar as suas leis e julgo que, no meu caso, isso até funcionou.
Não me passeei pelo mundo tanto como sonhara, mas ainda conheci alguma coisa dele. A experiência acumulada, que não quer dizer sempre erros acumulados, permitiu-me ter do mundo e da vida uma visão alargada em relação ao comum dos mortais.
Muito cedo me terei apercebido de que a luta por um lugar ao sol não era desígnio meu. Sempre gostei mais de partilhar do que disputar, embora entenda que a vida é disputa permanente.
O meu modo de estar na vida foi sempre muito mais interveniente que contemplativo, até esta fase em que me encontro.
Sempre tive veleidades de poder, com a minha acção, alterar qualquer coisa à minha volta. Nem sempre o consegui, mas tentei muitas vezes.
Gostava de poder dizer que deixei rasto por onde passei, mas não creio que isso tenha sempre acontecido. Nunca fui muito profundo na análise das questões que me eram colocadas, mas fui sempre muito empenhado na concretização das tarefas atribuídas. Sempre tive uma natural capacidade de decisão, mesmo não dispondo de todos os elementos de informação adequados, alicerçada na convicção de que mais vale uma má decisão do que decisão nenhuma.
Isto tudo para dizer que me sinto em sintonia com a vida e aquilo que ela me reservou em cada momento. Sempre tivemos uma empatia especial. Se me castigou algumas vezes foi porque eu mereci.
Queixamo-nos, queixamo-nos mas a maior parte das vezes temos aquilo que merecemos.
Nunca baixei os braços nem virei as costas a um desafio, mas não quer dizer que sempre os tenha ganho. Mas nunca fiquei com a sensação, também, de os ter perdido. Quando ganhei nunca pensei colher disso grande vantagem.
Esta conversa toda para tentar justificar como acabo por fazer coisas agora, impensáveis há bem pouco tempo, num misto de descoberta, aventura e também contemplação, que até aqui me tinha faltado.
Vamos a isto!

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quinta-feira, setembro 06, 2007

Luzes da Ribalta

"Deux petits chaussons du satin blanc..."

A idade não perdoa! Hoje estamos bem, tudo corre com naturalidade para amanhã ser tudo diferente! Dói aqui, dói acolá, a tensão arterial sobe vertiginosamente, as articulações negam-se a cumprir as suas funções, a vista trai-nos. As diabetes espreitam, o colestrol ameaça, o ácido úrico faz inchar o dedão do pé, a próstata prega-nos a partida. A vida sexual faz lembrar um filme legendado – a gente percebe a cena mas é melhor ler as legendas.
Resta-nos a memória do que já fomos! Nem sempre clara, nem sempre nítida mas reconfortantemente revivida, quiçá, com maior protagonismo.
Ao recordar, representamos um papel que já foi nosso e que nem sempre constituiu um sucesso de desempenho, por isso há que introduzir-lhe pequenas nuances que o tornem mais de acordo com aquilo que o público, que também somos nós, gostaria que tivesse sido. Há que prolongar as cenas de amor, melhorar as performances sexuais, garantir que os murros que damos, façam o adversário, pelo menos sangrar do nariz…
Há que colorir as cenas obscuras ou amarelecidas pelo tempo com as cores vibrantes da nossa imaginação, agora temperada com a experiência ganha.
Ao relembrar factos políticos, há que adocicar o azedume que nos causa falar de tempos em que não podíamos manifestar as nossas opiniões, em que se falava para dentro com receio que o eco da própria voz, pudesse denunciar-nos à polícia política.
Assiste-se a um branqueamento de figuras sinistras, dum regime maquiavélico, que parece querer renascer em cada momento que passa ou em cada medida governamental tomada.
Não há como moderar a voz para denunciar tal facto, não existe forma de como dourar a pílula quando disto se fala, nem como desmerecer de todos os que, mais do que nós, souberam tornar-se uma barreira intransponível ao seu avanço.
A idade não perdoa, mas trouxe-nos o arrojo e, de alguma maneira, a impunidade de quem já deve poucos anos à cova.
Encadeados pela luz da ribalta, resta-nos esperar pelos aplausos para saber que temos o público do outro lado, solidário, no mínimo complacente com a nossa actuação.
Cai o pano!

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quarta-feira, julho 25, 2007

A bolina da Política

Um amigo meu dizia que a política só podia fazer-se assim ou …. assim. Ele, concluía - preferia-a assim.
Eu, nem assim nem assado. Não prefiro. Sujeito-me e tento resistir. É o que me resta do pouco que, sobre esta matéria, aprendi.
Há também uma coisa que aprendi ao longo deste sofrido percurso: as políticas são aquelas que as pessoas que as praticam querem que sejam, independentemente de disciplinas partidárias, por mais rígidas.
Não acredito nos partidos embora entenda que sem eles é difícil haver política. Acredito ou não nas pessoas que neles militam e que dão a cara por eles, embora não os representem nunca.
Sabem de há muito os revolucionários que as revoluções são dirigidas por minorias activas que arrastam o resto da “maioria silenciosa” e a lançam numa escalada vertiginosa até à tomada do poder ou até ao cadafalso, a maioria das vezes.
Por isso as revoluções só são “bonitas e excitantes” enquanto o poder não é tomado.
Tomado este, há que matar os revolucionários ou, em alternativa, mandá-los fazer a revolução noutro lado.
O poder, diria eu, ou se exerce assim ou….assim.

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quinta-feira, maio 03, 2007

A Pluma Doirada

Um amigo meu, homem de muitas e bonitas letras, reconhecido pelas estórias com que brinda, há alguns tempos a esta parte, os leitores de alguns jornais regionais alentejanos(Aqui), costuma dizer que há imensa gente a escrever bem por essa blogosfera fora. Acredito. Também já tenho constatado.
Não pode isso, porém, fazer com que as pessoas desistam do seu projecto pessoal de se encantar a si mesmo e aos outros com o seu verbo fácil e fecundo de imagens e emoções, que transportam como uma doença.
É bom que acalentem a esperança da descoberta. Que deixem a fantasia transpor o portal do recolhimento e recato. As suas memórias, as suas experiências, as suas estórias, o seu verso, deve ser espargido, como de água benta ou perfume se tratasse. Mesmo que escondido no recôndito das prateleiras e estantes de livrarias e bibliotecas, mas tendo conhecido o esplendor solsticial da lombada de papelão ou carneira, como timbre pessoal de talento reconhecido.
O livro pode ser negócio, mas é também remédio e alento. É palco de paixões e ódios, de enredos e artimanhas, de ternuras e desejos, de lutas e de paz.
De desassossego.
Eu, escrevo na água. Para que a prosa me lave. Para que corra para o mar, numa torrente imensa, que a todos inunde de limpidez. Para que por fim se afunde no negro do abismo ou se espraie no branco doirado do sol.

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segunda-feira, abril 09, 2007

Tropeço em mim em cada estória que leio e ouço
Sem mim nada haveria
Como se no mundo por mim centrado
Fosse amado e desamado
De festa a vida enchesse
Renascesse ao terceiro dia

Revejo-me nas velas de cada barca
No vento que um grito leva
No mar que o embala e requebra
Na bruma que o ecoa
E a tempestade apaga
Sou da estória timoneiro

Sou apenas…isso tudo

ZEF

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sexta-feira, abril 06, 2007

A Paixão

O encontro de Deus feito Homem com os da sua espécie não poderia ter acabado de forma mais trágica.
A sua crucificação é entendida pelos Cristãos como o supremo sacrifício, revelador da sua paixão pela Humanidade.
A dor que lhe cobriu o rosto deixou marca na toalha com que a pecadora o limpou, única imagem para que se lhe vislumbrem as linhas que serviram até hoje para lhe dar memória visual.
É uma religião de glória no sofrimento, que apela à penitência como forma de sublimação do pecado e de aproximação a Deus na dor, por nós imolado.
É a perpetuação da dor, o único elo de ligação que nos deixou até si.
Respeito a dor dos que por ti sofrem, mas não me junto ao teu rebanho.
Sou cordeiro tresmalhado que procura fuga ao açougueiro.
Sou acorde dissonante nos cânticos divinos, em busca duma harmonia de luz e gesto que dê sentido e alegria ao milagre, sim, da Vida.
Quero uma religião de Aleluias e de Saudação à Vida e não à Morte.
Quero a religião do terceiro dia!

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segunda-feira, março 26, 2007

Hello Portugal

Li agora num blogue recomendado pelo Público Online, que o nosso amigo e aliado do peito, Winston Churchill, que procurou refúgio na Madeira, onde se entreteve a escrever memórias e a fazer sabe-se lá mais o quê, ter-se-á referido a Portugal, ao mesmo jeito de Lord Byron, dizendo que era um “País de tuberculosos, governado por um tuberculoso (Salazar)”.
Confesso que já tinha ouvido chamar muitos nomes, quer a um quer a outro, e sobretudo à mãe do outro, mas tuberculoso, não!
Mas registo.
País de tuberculosos, porquê?
De facto Portugal, viveu uma época negra da doença, que matou muita gente e definhou a raça.
A sua erradicação nunca terá ocorrido, mas foi conseguido um controlo sobre ela bastante eficaz, que parece estar agora em risco.
Mas voltando ao insulto do grande estratega da vitória aliada na 2ª Grande Guerra, aceito-o como um desafio, a que nunca gostei de fugir.
É capaz de ter razão o nosso estimado amigo ao chamar-nos de tuberculosos, que o éramos, muito provavelmente sem querer e por culpa também do outro tuberculoso a que se referia.
Mas se eu disser que metade dos ingleses são pederastas e a outra metade alcoólicos, também não devo errar muito e aí, meu caro, existe uma diferença substancial - é que se o são, é porque quiseram!

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quinta-feira, março 22, 2007

Os Novos Alcaides

- Sabes tu Gonçalo Nunes de quem é esse Castelo?
- Sei sim meu pai. É de nosso Rei e Senhor, D. Fernando de Portugal.
- Pois se sabes, cumpre o teu dever até ao fim. E maldito sejas tu, se o inimigo entrar nesse Castelo, sem tropeçar no teu cadáver!
Era assim que, nos meus tempos de menino e moço, nos era incutido este espírito, revivido em Aljubarrota, para que fosse mantida acesa a chama que nos defenderia dos Castelhanos e de Castela.
E agora?
Nacionalismos exacerbados não funcionam numa Europa que se deseja uma federação (ou confederação) de estados unidos, mas a descaracterização completa e absoluta dum país pequeno na área, mas grande pela língua que fala, intercontinental por ambição e descoberta, humanista por coração, também não me parece muito curial.
De Castela não acredito em ameaça, mas dos Castelhanos já lhe sentimos a garra e o poder. Poder que lhes advém do querer, da tenacidade e do empenho, mas também da falta de luta de, quem por cá, lha deveria dar na defesa do património, da economia, do tecido empresarial e que, por inépcia, incompetência, incúria ou simplesmente por interesses económicos imediatos e mesquinhos, o não faz .
Já sei que a Europa, réu béu béu béu béu. Mas só existe um sentido? De lá para cá?
Não percebo então por que têm as estradas duas faixas de rodagem! Bastava uma!
Nada neste país se come, se veste, duma maneira geral se consome, que tenha etiqueta portuguesa. As empresas e as propriedades urbanas e rurais começam a ter nomes e dísticos em várias línguas, de que a castelhana é de longe maioritária.
Parece que até os mercados abastecedores já falam espanhol.
A própria língua se enfraquece com a falta de uso que lhe damos. Os neologismos necessários numa sociedade tecnológica, em vez de a enriquecerem têm efeito inverso, pelo facto de os incorporar sem os obrigar a sofrerem ajustamentos ortográficos ou só de pronúncia, que seja.
Não faltará muito para que o Inglês ou o Espanhol se torne em língua mãe e o Português passe a dialecto.
O que diria hoje Nuno Gonçalves ao seu filho Gonçalo Nunes?
- Pois se sabes, cumpre o teu dever até ao fim e maldito sejas tu se não deixas que os castelhanos tomem sem luta esse castelo.

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