quinta-feira, julho 09, 2009

O Sopro

Regressei ao meu companheiro de férias Haruki Murakami, desta vez numa estória de amores fatais e impossíveis, com personagens estranhas, situações e ambiências esotéricas muito ao seu gosto e passagens obrigatórias pelo jazz, de que é um conhecedor e apaixonado.
Também neste aspecto as férias têm sido profícuas com leituras variadas e interessantes. Tem sido o que se chama tirar a barriguinha de misérias.
Não que a falta de tempo me limite as leituras noutras ocasiões, mas falta-me a disposição. A leitura requer
uma serenidade e paz de espírito que só as férias me conseguem fazer alcançar. Não sei explicar as razões, mas normalmente estou mais virado para actividades físicas como a caça, a pesca, a jardinagem, o cuidar do pomar, além de outras actividades complementares todas a puxar para o físico.
As férias, apesar de partilhadas com os netos, dão-me alguma margem de manobra para ler, contemplar, repousar o espírito e o corpo.
Outra das vantagens das férias é o repouso de ver televisão também. Temos a nossa vida condicionada e muitas vezes espartilhada por construção própria. Vamo-nos deixando enredar por obrigações que criamos e que temos de desembrulhar de vez em quando para nos podermos ir mexendo. O vício da televisão é um deles, o do computador é outro que não consigo descolar por mais que tente.
Vou ter um dia destes de me isolar num local onde não haja corrente eléctrica. Quando acabar a bateria não terei mais possibilidade de o utilizar por uns tempos. Só deste modo poderei fazê-lo.
Ele funciona para mim como um pulmão. Por ele respiro e por ele sopro!

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terça-feira, agosto 05, 2008

Ideias "Au Gratin"

As mentes toldam com o calor. Era melhor o país fechar para férias, porque assim não se faziam nem se diziam tantas tolices.
E o calor está a apertar. Mais uma vez os termómetros rondaram os 40º aqui por estas bandas. Nem dá para pensar.
Não sei se é a temperatura a subir que faz baixar o preço do petróleo. Há qualquer coisa nisto que me escapa.
Que grande salganhada que por aí vai. O Governo admite pagamentos em géneros, mas entretanto faz inventário de bens penhoráveis. Será esta a moeda? Serão estes os géneros?
O Presidente assusta-se com o Estatuto dos Açores e fala ao País. Apesar de votado por unanimidade na Assembleia o projecto de diploma tinha uma série de inconstitucionalidades.
Será que os partidos e os senhores deputados não conhecem a Constituição ou já estavam a pensar nas férias?
Por outro lado o Presidente também parece ter apanhado uma ponta de sol. Preocupado em contrariar todas as bancadas do hemiciclo? Justificar o que a Constituição já justificara?
Podia ter aproveitado para dar umas dicas sobre problemas que não afectam somente os açoreanos e o presidente, mas todos os portugueses, que ainda não conseguiram entender até onde vão chegar os seus sacrifícios e também ainda não viram resultados deles.
Na Madeira “O Copus Night” tentou dançar mais um bailinho, mas parece que desta vez torceu o pé.
Coisas de Baco, que se não dá bem com o calor que por aí vai fazendo!
E assim vamos nós sofrendo com o caloraço que Agosto põe em tudo!

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domingo, agosto 03, 2008

Se o calor que a gente sente, cá dentro...

Sem que nada o fizesse esperar, hoje o dia aqueceu de forma brutal, com os termómetros na Igrejinha a beijarem os 40ºC. Em Lisboa, apesar do céu limpo, a temperatura era muito mais amena, porque corria uma aragem fresca de Norte.
Estas alterações bruscas no tempo promovem o desconforto e, nalguns casos, doenças. Este é, no entanto, o tempo próprio da época. Não é por acaso que a maioria dos portugueses ainda opta por gozar férias em Agosto.
Cá por mim não me importo muito do calor desde que tenha possibilidade de me refrescar. Mas por quanto tempo é possível desfrutar de banho diário e doutras mordomias de arrefecimento e higiene?
Contrariamente àquilo que é voz corrente, não me parece que por cá se tenham feito sentir grandes alterações climáticas, tanto quanto a minha memória me permite avaliar. No entanto, as condições de vida é que se alteraram de forma drástica, tornando-nos a todos muito mais gastadores de recursos energéticos e hídricos, pondo em risco a nossa própria sobrevivência.
O ciclo da água está comprometido, tanto na forma de chuva que arrasta consigo as poeiras tóxicas e gases ácidos, que irão contaminar as florestas e os terrenos de cultura, como depois nos lençóis freáticos e finalmente nas captações de água para consumo doméstico.
Ao aquecermos mais o ambiente com os gases de escape das viaturas, das chaminés das fábricas estamos a aumentar a evaporação da água, desumidificando os solos. Por outro lado, com o buraco do ozono, deixamos a atmosfera mais permeável às radiações solares que, implacavelmente, nos irão atormentar a existência.
Talvez isto seja a forma da Natureza se auto-regular, fazendo com que morramos mais depressa e em maior número, para gastarmos menos recursos naturais e repor dessa forma o equilíbrio que desfizemos.
As pestes resolviam grande parte deste problema. Hoje com as vacinas, a assistência médica e medicamentosa aumentando a longevidade, a coisa ficou preta.
As guerras aparecem assim como outra forma de reequilibrar essa balança natural. Se acontece com os outros animais, porque não havia de acontecer com o bicho-Homem? Os pacifistas não avaliam bem o custo da paz, se comparado com o da guerra!
Os sistemas de segurança social são incapazes de responder com eficácia às solicitações cada vez mais prementes dos idosos, dos inválidos, dos sem-abrigo, dos desempregados, dos refugiados, dos clandestinos.
Uma guerra resolve grande parte destes problemas pela raiz.
Esta conversa toda a partir do calor que se faz sentir. Naturalmente, também ela é fruto desse calor.
Refresquem-se, pois, se puderem!

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sábado, julho 19, 2008

Resta o Luar


Nem os ralos se ouvem, certamente cozidos pela calorina que se fez sentir ao longo da tarde.
Os milharais são agora o refúgio de tudo o que mexe no Vale do Divor.
O astro esteve sempre dum azul encardido com a poeira levantada pelos espojinhos e pelas aragens desencontradas, do ar quente a subir.
Só os estorninhos se atrevem com este calor, na sua actividade de rapinar tudo o que encontram desprotegido – uvas que começam a pintar, algumas ameixas ou peras serôdias ou que ficaram, os figos ainda em leite. Bichos danados que nem para comer servem, de duros que são.
Lá longe, de vez em quando o latir de algum cão encalorado. A lua faz-se anunciar e prepara-se para cobrir o estrelado do céu e pratear a noite serena, envolvida em odores de restolhos, madressilvas e alfazemas ainda quentes.
Na aldeia, as pessoas puxam bancos e cadeiras quase para o meio da rua, na espreita duma aragem que teima em não aparecer. Hoje vão-se deitar tarde na esperança de que a noite traga alguma frescura. Os deveres matrimoniais terão que esperar pela madrugada ou ficam adiados.
Apesar de ser dia de banho, o suor já repôs o cheiro dos corpos suados e as camisas lavadas já estão empapadas.
Não há como fugir do calor. Com o frio a gente ainda se tapa.
Nem a gente tem apetite. Só se for uma cervejola muito fresquinha, pois que nem o tinto agora sabe bem e o branco faz mal ao colesterol e a mais não sei quê.
Para mim é o que quero. Uma bejeca a estalar, por favor!

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terça-feira, julho 15, 2008

A festa das sombras...


Tempo de festas, de sol ardente e de orçamentos curtos. Talvez ocorra menor número de incêndios já que os foguetes deverão ser menos porque dinheiro não abunda e, sobretudo, porque não há razão para eles.
De facto, nem cá nem por aí fora, Estados Unidos incluídos, parece haver razões que justifiquem lançar um único foguete. Bem basta os que são lançados diariamente no Iraque, no Afeganistão e em breve no Irão.
Com o etanol e o biodiesel a tirarem pão da boca aos mais necessitados, com a fome a ameaçar as classes médias endividadas, não parece existirem razões para festejos e folguedos.
O Banco de Portugal aconselha o Governo a rever o orçamento em baixa. O que é isso? Quer dizer que ele foi feito em alta? Só se for a alta de preços e de impostos…
Vamos festejar o quê? Só se forem os bons resultados da Banca?! Isto, apesar dos créditos mal parados…
Eu por mim só tenciono festejar o ainda estar vivo! E, mesmo assim, é caso para pensar!

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sábado, julho 12, 2008

O Pulo do Lobo


Encerramento oficial das férias de mar, já que as outras continuam. E para final, julgo que bem pode falar-se em apoteose.
Largámos dos All Garbs rumo a terras transtaganas, por percurso serrano, com passagem por Mértola e paragem em Moreanes, para degustar um almoço de cozido de grão, antecedido dumas fatias dum magnífico presunto de porco preto e dum queijo de Serpa que não lhe ficava atrás. Esta maneira de fazer o cozido é diferente daquela que é uso aqui por estas bandas alentejanas. Ali não leva abóbora nem feijão verde. De qualquer modo estava de encher o bandulho dum abade.
Comemos entre óleos sobre tela, gravuras a tinta-da-china e outras técnicas de pintura, representando obras de pintores variados de que guardo o nome do Malangatana e dum pintor Cubano, Gutierrez.
Não sendo capaz de emitir juízos de valor sobre as obras expostas, resta-me apenas dizer que gostaria de poder ter adquirido duas delas, se a minha capacidade financeira mo permitisse. Mas se assim fora, teria eventualmente escolhido outras noutro espaço qualquer, que mais me agradassem.
Mesmo assim, registo o facto de no fim do mundo e no meio de nenhures, ter encontrado um almoço de quatro estrelas, ornado de obras de arte.
Por indicação do dono do restaurante, fomos em busca de queijaria nas imediações do Pulo do Lobo, onde adquirimos quase dois quilos daquela preciosidade, que de Serpa tem o nome e que só se encontra fora dela, de boa qualidade.
Não resisti, mau grado a hora de “esturrina” a que lá chegámos, a dar uma olhada no Pulo do Lobo que só conhecia de ouvir falar.
De facto é um Guadiana diferente aquele que no Pulo do Lobo se esgueira entre as fragas rasgadas da serrania pela força das águas, ao longo de milénios.
Não sei se as barragens a montante lhe terão alterado o cinzel, mas deu para entender como a Natureza vai moldando a paisagem às suas necessidades e produzindo, também ela, as suas obras de arte.
A chegada fez-se pela tardinha, com muitas águas das pedras bebidas ao longo do extenso e esturricado itinerário escolhido.

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quinta-feira, julho 10, 2008

Verdades com sabor a mentira


De tanto forçar a verdade às vezes estou quase em acreditar na mentira.
Há factos que conhecemos, ou porque vividos ou presenciados, que nos chegam de outras vozes, alterados, enfeitados de pequenas mentiras que não os violentando nem deformando eticamente, lhe atribuem por vezes um peso ou importância que nunca lhes demos.
Na minha vida destemperada de moderação tenho algumas vezes sido protagonista de cenas que não me envergonham, mas de que me não orgulho.
Não tendo sido a primeira vez que isto me acontece, fui recentemente testemunha presencial da citação de uma delas por um amigo de longa data que lhe quis emprestar um sabor que para mim não teve. Feito o reparo, o meu interlocutor fez de mim ancião precoce, incapaz de me lembrar correctamente de factos comigo ocorridos e por ele presenciados, única coisa de que não me lembro de todo.
Mas é assim que as coisas devem ser apresentadas em praça pública, testemunhadas e rubricadas por baixo pelo próprio, sob risco de passar por necessidade de consulta médica por suspeita de Alzheimer

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quarta-feira, julho 09, 2008

Fim de Férias à vista

O Verão retornou com sabor algarvio – quente e pegajoso.
A minha qualidade de sequeiro já começa a enfastiar-se com tanta água.
A rotina já invadiu a minha privacidade não me deixando escapatória. Necessito voltar à rotina anterior para fugir a esta.
A própria leitura que tanto gozo me deu também está a precisar de ir de férias.
No meio disto tudo resta-me a consolação de ter tirado férias de política e de futebol. Não vejo noticiários e apenas faço as palavras cruzadas dos jornais, vejo as horas das marés e o estado do tempo para o dia seguinte.
Nem ao menos existem muitas razões para estar atento na praia, a ver quem passa. É um desfile de misérias.
Acho, no entanto, corajoso a forma como algumas pessoas expõem a sua natureza à apreciação dos outros. Será que se perdeu a noção do equilíbrio e do belo?
Será que já não interessa nada do que se vê? E sobretudo do que se não vê? Como é que as pessoas lidam hoje com a sua própria estética? E com a sua sexualidade?
Claro que já me preocupei mais com este assunto do que me preocupo hoje, mas não deixo de achar que é um aspecto importante da vida das pessoas que julgo está descurado ou mal entendido.
As pessoas têm obrigação, do meu ponto de vista, de se fazerem agradar aos outros, aos que lhe estão próximos e a elas mesmas. São animais sociais. Têm que se procurar e se encontrar e o que vejo mais são atitudes contrárias, de repulsa através de presença física mal cuidada, de comportamentos excessivos e despropositados.
Numa palavra, a cultura do vazio ou, se se quiser, do nu por dentro e por fora.
Perdeu-se o interesse de descobrir, a ternura de partilhar e o encanto de sonhar.
Posso acabar as férias, já!

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segunda-feira, julho 07, 2008

“Alguma coisa vai mal no Reino da Dinamarca”

Há coisas que se não entendem. Hoje fui a Ayamonte, porque havia muito vento e estava mau para banhos.
Não sei há quanto tempo lá não ia mas julgo que o máximo poderá ter sido dois anos.
Pois bem! A diferença é abismal. Novas construções mas, sobretudo, um crescimento ordenado, arruamentos com bordaduras floridas, zonas de estacionamento, informações de trânsito claras e abundantes, zonas exclusivas para trânsito pedonal, a maioria já existente.
Uma terra acolhedora, contrastando brutalmente com V.R. de Sto António, ali do outro lado, onde tudo é feio, desordenado e longe das pessoas.
A crise não parece ali ter chegado. Gente aos montes por tudo quanto é sítio, incluindo portugueses, mas muitos outros estrangeiros.
Consegue ali sobreviver-se a preços mais módicos do que do lado português. Não é uma diferença abissal, mas nota-se.
Uma nota curiosa: o arrumador do parque de estacionamento era, adivinhe-se…português.

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Retorno


Fui atirado para as carteiras do liceu, outra vez, ao reler Virgílio Ferreira. Durante algum tempo foi professor substituto do professor de Português da minha turma, que apareceu mais tarde já com o ano escolar em curso. Talvez por isso não se tenha esforçado muito.
Aulas monótonas, num monólogo interminável, praticamente sem levantar os olhos da secretária. Um ar cansado que o acompanhava sempre como se respirar constituísse, por si só, esforço bastante.
Linguagem hermética e indecifrável para garotos alentejanos do segundo ciclo, com um ligeiro sibilar beirão que o catalogava de galego.
Não sei se alguma vez nos olhou directamente e se fixou algum dos nossos nomes. Julgo que ele odiava simplesmente o ensino, que se lhe impunha como meio de subsistência.
Escritor, naquele tempo, não devia ser suficiente para garantir independência financeira. Ler não era apanágio dos portugueses e obras traduzidas noutros países julgo que não teria ainda.
O sacrifício era mútuo, já que aturá-lo não era simples também.
Manteve-se pelo Liceu de Évora até o seu filho adoptivo, de seu nome Virgílio também, ter acabado o secundário e ter ingressado na Faculdade em Lisboa, para onde se transferiu.
Penso que Évora e o Alentejo lhe carregaram a bagagem de experiências diferenciadas, de que “A Aparição” se dá conta.
Com uma vida literária longa e fecunda, estes contos que agora leio, não deixam de demonstrar a sua faceta de escritor do feio, mas também retratam a postura duma pessoa atenta e preocupada com os problemas sociais do seu tempo.

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domingo, julho 06, 2008

O Engenho e a Arte


Haruki Murakami é de facto uma máquina de criar estórias a partir de qualquer coisa ou mesmo de coisa nenhuma. A simplicidade da escrita e a fluência narrativa fazem de qualquer assunto um motivo de magia.
A frescura do fantástico de mão dada com a torpeza do real. O insólito a par do plausível. Mas sempre, sempre a emoção da leitura, da busca dos limites, a navegação estimada em detrimento da navegação à vista.
Perdendo-se para logo se encontrar, derivando para de seguida se redireccionar, escalando para de pronto descambar, enrolando só pelo prazer de depois desenrolar.
Os títulos são outro prodígio de criatitividade. Envolvem mais do que uma ideia, mais do que um nome ou uma referência. Eles são um propósito, um itinerário mental, às vezes um louco devaneio.
Os contos, mesmo quando escritos na terceira pessoa, ressoam a experiências pessoais aureoladas por uma fantasia derivante.
É uma das minhas preferências em termos de leitura de férias, descontraída, fresca, mágica.

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sexta-feira, julho 04, 2008

Lua Nova e Baixa-Mar


As luas e as marés estão ligadas como a vida e a morte, como o dia e a noite. Umas originam as outras ou sucedem-se inexoravelmente.
A Lua Nova sempre me intimidou. Talvez pelo escuro que carrega consigo, ou simplesmente pela falta de luz que representa. Pelo contrário, a Lua Cheia, a tal dos lobisomens, sempre me encantou, muito provavelmente por oposição à Nova.
Qualquer delas tem efeitos bem visíveis na altura das marés.
Hoje no Baixa-Mar as águas retraíram-se até não sei onde. Pareciam envergonhadas por trazerem carradas de algas verdes, verdadeira salada de alface. Foi possível caminhar sobre a areia molhada resgatada ao fundo do mar durante mais de 50 metros até encontrar a água.
Claro que rapidamente as pessoas se organizaram em “raquetistas”, futebolistas e caminhantes, aproveitando o ensejo.
Mas não há bela sem senão e logo o vento do virar da maré trouxe um toque desagradável, obrigando muita gente a enfarpelar-se ou simplesmente raspar-se antes de apanhar uma pneumonia.
Eu fui uma delas. Não só me vesti como também zarpei logo que pude.
Estou como a lua. Sem luz nem paciência.
Hoje nem as palavras cruzadas saíram.

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Nariz ao Vento


Como um perdigueiro a farejar a caça, encho as narinas no vento carregado de odores das mostardas já secas e de outras herbáceas das marismas, de quando em vez cortado pelos dos pinheiros e abetos plantados para sombrear e proteger o caminho aberto nas dunas para dar passagem aos veraneantes até aos areais da restinga.
É um trajecto que cumpro religiosamente num ritmo a um tempo rápido e biológico, isto é, capaz de garantir actividade cardiovascular acima do normal mas manter a respiração regularizada, com capacidade sobrante para desfrutar do milagre diário da vida entre marés.
Nos esteios, por elas criados, como se fossem artérias e veias, a água leva a humidade a toda uma vegetação que dela precisa, permitindo-lhe sobreviver aos calores do Verão escaldante. Aí se protegem também os alevins das investidas dos predadores até serem capazes de, por si sós, deles escaparem na luta pela sobrevivência.
Neste vaivém das águas, as marismas vão-se livrando dos produtos tóxicos que fabricam e são renovadas de nutrientes que necessitam. Entretanto, a voracidade humana retirou-lhe a maioria dos caranguejos que por ali se viam em profusão, há uns anos atrás, que cavavam galerias onde se escondiam e que serviam também de reserva de água entre marés.
Este sistema vascular não sei quanto tempo mais vai durar. As marés um pouco maiores já quase afogam a vegetação que ficava sempre em seco, apenas com as raízes humedecidas.
A pouco e pouco ou a muito e muito lá vamos cavando a nossa sepultura cultural e arrastando para ela os outros companheiros de infortúnio, que não têm culpa nenhuma das asneiras que vamos fazendo.

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quinta-feira, julho 03, 2008

Branquinhos da Silva


O Sol vai deixando as suas marcas, não só na cor da pele como também na sua textura, enrugando-a, gretando-a, envelhecendo-a mais rapidamente.
No entanto, os corpos tisnados do sol aparentam mais saúde dos que os branqueados pela luz artificial dos escritórios, ou mesmo os pintados em solários de UV’s.
Hoje chegou uma nova fornada de branquinhos da silva, preparados para a assadela anual, como num ritual tribalista.
Os cheiros dos protectores solares empestam o ar que se respira e dizem muito dos seus utilizadores. Consegue perfeitamente distinguir-se um protector ou bronzeador comprado no vendedor de jornais da esquina dos adquiridos nas farmácias ou ainda nos esteticistas ou institutos de beleza.
Tento combater a rotina, mas não consigo de todo fugir às tarefas que me estão confiadas e que fazem deste período que deveria ser de mudança, apenas um período de permuta geográfica temporária.
A temperatura mantém-se óptima dentro e fora de água. Apareceram as algas verdes, que dão a sensação de nos banharmos numa panela caldo verde, só faltando mesmo a rodela de chouriço.
A fugir à rotina apenas a alimentação mais frugal ao almoço e o peixinho fresco ao jantar. Algum exercício mais do que é habitual completa esta ementa de veraneio.

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quarta-feira, julho 02, 2008

Desconsertos e Consertos

A invernia fez estragos no areal da Praia do Barril e duma forma geral em toda a orla marítima da Ilha de Tavira, parte da Ria Formosa. Abriu-lhe brechas que deixam passar a água criando pequenas lagoas no Preia-Mar, que fazem a alegria da pequenada, mas complicam a vida dos adultos, agora cingidos a uma faixa de areia mais estreita e inclinada, que não dá para as futeboladas, as raquetadas e até as passeatas.
Por outro lado a crise económica abriu também brechas no orçamento dos europeus e dos portugueses, em particular, diminuindo a ocupação hoteleira e também o número de pessoas nas praias, nos restaurantes, nos bares. Pode ser apenas a mudança de mês e que as coisas se alterem a partir de 1 de Julho.
No mesmo restaurante, a mesma ementa do ano passado pode custar este ano mais 30 a 40%. São os comerciantes a tentar tirar partido da situação ou corresponde de facto a uma carestia real? Nunca o saberemos.
O tempo está bom. Quente quanto baste, com a água do mar quase à temperatura do corpo. A brisa marítima suave mas refrescante a completar o quadro.
Para quem está “permanentemente em férias”, este período tem tido um sabor de férias reais, um corte quase total com tudo o que era a prática quotidiana.
Tempo para ler, coisa que há já algum tempo não fazia com regularidade. Leituras leves e variadas. As escolhas feitas mais pelos títulos que pelos conteúdos. É o meu processo normal de escolha, a não ser que tenha alguma indicação especial em relação a qualquer obra ou autor. Um dos títulos foi-me particularmente apelativo – “A Árvore das Palavras”.
Tem este período servido também para, duma forma mais sistematizada, praticar alguma actividade física, contrariando a tendência de relaxe em que nos vamos deixando cair com a idade.
Resumindo, estou a reparar alguns dos estragos. Do tempo...claro!

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Análise no Feminino

Se procurasse, dificilmente encontraria duas abordagens do mesmo tema em dois livros de autoras distintas com enquadramentos completamente diferentes, com cargas culturais diversas, com análises em tudo semelhantes.
A temática centra-se nas relações interpessoais homem-mulher, uma montada sobre pura ficção antropológica dos primórdios da Humanidade, a outra retirada da memória e vivência reais, numa época concreta, numa cidade bem identificada.
Ambas derrapam muitas vezes na explicação do inexplicável que em todos nós existe. Pretender padronizar entendimentos e conceitos no feminino ou no masculino é quase tão difícil como saber se o ovo antecedeu a galinha.
Qualquer das tramas suporta bem a temática. A ficção supera em imaginário o que a outra consegue de palpável.
Os encontros e desencontros homem-mulher, são ao fim e ao cabo a essência da vida.
Dessa realidade resulta sempre a mais sublime ou ultrajante ficção. Dessa ficção resulta, certamente, a realidade mais dolorosa ou a mais complacente e altruísta.
Dessa relação nascemos todos nós.

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O Jogo do Sol

Todos os anos é a mesma coisa. Este Verão será o mais quente de todos. Vamos todos torriscar. Os UV estão brutos. Não podemos expor-nos ao sol sob risco de lesões cutâneas graves. Mesmo cancerígenas.
Mas se não for do sol será da sombra. Não existe conserto. As águas e o ar estão inquinados, os alimentos carregados de substâncias tóxicas. Que nos resta?
Tudo em nome das tecnologias, do desenvolvimento, da produtividade, a tal, que nos falta a nós. Pelos vistos ainda bem!
A camada protectora do ozono está furada. Eu pergunto o que não estará?
Com isto tudo, no entanto, a longevidade aumentou! Pois é, mas à custa de quê? De medicamentos, que nos tiram os males dum lado e os põem noutro, retirando-nos a qualidade de vida. Hoje quem poderá dizer que não é toxicodependente, pelo menos a partir duma certa idade?
Ele são remédios para a tensão, ele são medicamentos para a diabetes, ele são drogas para as dores disto ou daquilo.
E o Sol, apesar disto tudo continua a brilhar, como num jogo, a ver quem consegue encandear mais depressa e fazê-lo sair do tabuleiro onde é jogado.
Eu gosto de sol e do Sol, que considero o verdadeiro elixir da vida. Vou querer manter-me em jogo enquanto puder, nem que para isso tenha que tapar sozinho o buraco do ozono…

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