segunda-feira, março 29, 2010

Quem és tu
Que me empurras quando hesito
Que me agarras quando estou à beira de cair
Que assinalas o trilho quando perdido estou
Que dás força para suportar o peso que carrego
Que fazes rir os meus olhos de água
Que fazes da dor este poema?
Eu?
Eu, sou a vontade indómita de ser!

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sábado, novembro 28, 2009

Desígnios

Poderá alguém jurar que os seus desígnios de vida, se é que os teve, se cumpriram ainda que parcialmente?
Seremos nós hoje, o que imaginámos há muitos anos atrás?
Ao olharmos o espelho reconhecemos nele o jovem idealista que já teremos sido ou, antes, vemos a imagem dum estranho encarquilhado pelos anos e pelos desaires duma vida gasta sem sentido e sem deixar rasto, mesmo que peçonhento?
“Retroespectivando-me”, diria que, de certa forma, sou hoje a sombra muito semelhante da que alguma vez imaginei ser.
Quando falo em desígnios não falo em sonhos, claro. Esses jamais se cumpririam e é bom que assim tenha sido e continue a ser. Os sonhos levam-nos a saltar as regras, as conveniências, as expectativas, o que é saudável e faz andar o mundo. Não nos levam normalmente a qualquer lado, mas levam-nos a todos os lados.
Os desígnios, para já não falar dos de Deus, são objectivos concretos que nos propusémos alcançar em tempo útil.
Os meus propósitos quase se cumpriram, com pequenos desvios de rota impostos pelos escolhos que sempre vamos encontrando e que galgamos com maior ou menor dificuldade ou não ultrapassamos de todo.
Uma das minhas intenções mais remotas consistia em sair rapidamente da terra onde nasci e me estruturei emocionalmente. Um intento épico, o saltar para o desconhecido um pouco na senda das descobertas marítimas e daí, porventura, a escolha do meio de o fazer – a Marinha.
Apesar da época conturbada que se viveu nessa altura, acabei por reconhecer o mérito do sacrifício como o preço da vida, bem expresso numa máxima dos Fusos – o suor gasto no treino é sangue poupado na luta.
E as lutas foram muitas para as quais nem sempre me senti treinado e especialmente apto. Mas valeram a pena a maioria delas.
O lutar contra o que quer que fosse que me parecesse injusto, fez-me sempre sentir vivo. Não foi nunca um sonho meu, mas terá sido muito provavelmente um dos meus desígnios.
A vida é luta, com batalhas nem sempre ganhas, mas com vitórias sempre festejadas. Nunca recolhi despojos dessas pelejas, nunca almejei lucros nem ribalta, sempre me senti compensado pelas noites bem dormidas.
Não fui nunca destemido, preocupando-me sempre a segurança de quantos de mim dependiam, mas nunca virei a cara a confrontos, quando necessários ou inevitáveis. Sempre entendi que para os militares a ameaça tem que ser a arma mais eficaz de quantas dispuser.
Nem sempre é a falar que a gente se entende, mas terá sempre que ser esgotada essa alternativa.
Com passagens por África e pelo Oriente marcantes, cumpriram-se alguns dos meus desígnios de descoberta para que apontava na minha juventude. Com uma passagem, ainda que breve, pelo Brasil só me escapou mesmo a América do Norte como destino desejado.
Vi o dealbar dum novo país, sempre adiado infelizmente, mas nem por isso perdi a esperança de que algum dia se descubra e desponte para o maior feito porventura da sua longa História - tornar a vida dos seus filhos um projecto aliciante de futuro.
Espero que as minhas filhas e os netos possam alguma vez retirar da vida a alegria de a viver em harmonia e equilíbrio como me tem sido possível a mim fazê-lo.
E, como destino último provável voltei às origens, cumprindo igualmente outro desígnio mais tarde urdido, consentâneo com uma vida mais calma, mais perto daquilo que me faz sentir vivo e que um dia me roerá os ossos – a terra.

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quinta-feira, junho 04, 2009

Retrato de meio-corpo


Olá!
Eu sou o "Flecha". De meu nome completo, "Flecha do Divor". Não tenho pedigree de papel passado, mas sei que os meus pais são gente, desculpem, cães de bem.
Tenho quatro meses e tal e já faço umas habilidades que o meu dono teima em ensinar-me, mas que eu só vou aceitando fazer por causa do suplemento alimentar que recebo quando acerto. Coisas de gente!
Sou branco salpicado de castanho, mas tenho irmãos brancos sarapintados de preto. Gosto de mim assim. A minha mãe também era assim. Era linda. Ainda sinto nos beiços o sabor bom do seu leite quentinho e doce.
Tive um azar de percurso. Um dos meus irmãos roeu-me a ponta do rabo, de modo que não sei como vou ficar quando a minha pelagem crescer nessa zona. Pouco importa desde que dê para sacudir as moscas.
Já percebi que o meu dono fica aflito quando me vê correr desabridamente, provavelmente a pensar como me vai acompanhar nas jornadas de caça.
Ele que se cuide porque eu sou muito rápido. Não foi por acaso que me puseram o nome de Flecha.
Bem, vou ficar por aqui na minha apresentação. Se tiverem por aí uma “gatinha”, quero dizer uma cachorrinha, preferencialmente da minha marca, isto é da minha raça, por favor avisem o meu dono. Estou mesmo a precisar dumas ternurinhas.
Turrinhas para vocês.

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sábado, dezembro 13, 2008

O Cantinho dos Artistas

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quarta-feira, setembro 10, 2008

A Pancada da Idade

Imagem daqui

A partir duma certa idade julgo que todas as pessoas começam a ter algumas preocupações com o físico, com a saúde, com o seu bem-estar.
Porque é a partir duma certa idade que aparece “o pneu”, que as comezainas começam a deixar marcas bem visíveis em todo o corpo, que a velhice põe dores em tudo que é sítio, em que as tensões começam a dar mostras de não querer ficar-se dentro dos valores normais.
Por tudo isto, há uma tendência para reiniciar alguma actividade física, para quem como eu não a tinha, de forma regular, desde há bastante tempo.
Primeiro umas caminhadas matinais, estimulantes das funções cardiovasculares, depois algum exercício específico para os pontos mais atingidos pela ferrugem da terceira idade.
Por essas e porque de moto próprio não conseguia dar sequência a uma acção consertada, resolvi deixar isso ao cuidado dum ginásio, que me arranjou um esquema que tento cumprir religiosamente e que começa a dar os seus frutos, já visíveis na baixa e regularidade das tensões arteriais, na diminuição do pneu e no bem estar que começo a sentir.
O reverso da medalha também existe e neste momento, que penso passageiro, doem-me as articulações quase todas, como se fossem dobradiças que há muito não viam lubrificação e que de repente se viram invadidas por uma quantidade de “penetrating oil”, tipo Bala, que as fazem ranger por todo lado.
Há músculos que não deviam mexer fazia anos e que começam agora a ter que apresentar-se ao serviço, dia sim-dia não.
Já não fazia nada programado, deste jeito, desde a minha passagem pelos Fuzos.
Faz já algum tempo.

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sexta-feira, agosto 22, 2008

O Gesto

Imagem daqui

Não é que aprecie a festa brava. Tão pouco a recrimino ou a não suporto. Habituei-me a vê-la desde miúdo e reconheço que existe muita gente que gosta e que faz dela um modo de vida ou, melhor, uma forma de estar na vida. Normalmente, bem!
Hoje, num noticiário sobre uma corrida de touros, não sei onde, os grupos de forcados foram desbaratados, e bem, pelos touros, tendo alguns deles ido parar ao hospital.
Queriam festa? Aí a tiveram!
No meio das imagens de forcados a ir ao ar, a rebolar pelo chão da praça empurrados pelos brutos, uma cena houve que me tocou bem fundo, pelo que encerra de brio, espírito de entreajuda, camaradagem, coragem, abnegação.
O forcado da cara saíra mal tratado pelo touro, tendo ficado caído por terra sem dar acordo de si e o animal, que já o pisara, preparava-se para investir sobre ele de novo. É então que salta um homem do grupo, que se deita sobre ele, protegendo-o, tendo sofrido várias marradas, algumas com bastante violência, que teriam sido recebidas pelo companheiro maltratado.
Não é vulgar na vida alguém expor-se por nós, protegendo-nos das investidas dos nossos inimigos, sobretudo com risco da própria vida.
Só as situações de grande apuro fazem surgir atitudes desta natureza, que de alguma forma nos reconciliam com a nossa condição humana e solidária, tão afastada da nossa vivência diária de intriga, de paz podre ou violência criminal.
Da festa brava, à portuguesa, veio o gesto!

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segunda-feira, agosto 18, 2008

Redescoberta de Évora

Panorama de Évora no século XVI, segundo um desenho da época.

Carcomido pela formiga branca ou qualquer outro bicharoco, descobri entre o espólio de casa dos meus pais, um livro, a que chamarei de caderno publicitário sobre a cidade de Évora, da autoria de Matos Sequeira e Alberto de Souza, editado pela "Emprêza Nacional de Publicidade", presumivelmente nos anos 30, que aborda a cidade, no dizer dos seus autores, de forma íntima.
O caderno retrata a cidade duma forma radiográfica, tentando identificar-lhe as origens, como se duma pintura antiga se tratasse e as alterações que a História lhe foi impondo ao longo dos séculos, através das marcas deixadas sob a forma de arruamentos, edificações, pormenores de vida intimista duma metrópole por onde desfilaram muitos povos, onde algumas culturas se instalaram e que muitas vezes só são visíveis a quem procura.
Se romanos deixaram vestígios sólidos, já árabes apenas se reconhecem nos hábitos das gentes e nalguns artefactos e técnicas que foram ficando.
Da judiaria ainda vestígios nas ruelas e dos seus nomes.
A História atravessou-a em todas as direcções e aqui se escreveram páginas de sangue e lutas e também de trabalho árduo e sofrido.
Toda essa herança estampada em cada esquina, em cada janela, em cada miradouro, em cada pátio de casas senhoriais ou em cada claustro de conventos.
Os poços, os aquedutos, as fontes apontam as necessidades sempre sentidas e mostram a vontade de as satisfazer ao longo dos tempos.
Portas góticas e manuelinas abriram-se para deixar entrar as modas e as escolas arquitectónicas, que se entrecruzam no branco imaculado da cal das paredes e no empedrado romano das calçadas.
Évora, Yeborah ou Ebura, sem regrado de linhas, em que tudo é esquinado, reentrante, irregular, caprichoso, cidade de inspiração árabe e alma cristã, painel de culturas e religiões, mostrada pela mão primorosa do ilustrador Alberto de Souza e pela prosa saborosa do narrador Matos Sequeira.
Uma pepita encontrada no sequeiro deste Alentejo.

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terça-feira, julho 29, 2008

Faróis e Faroleiros


Uma das vantagens dos idosos é poderem repetir-se sem que daí advenha mal ao mundo.
Pois bem, uma das descobertas na minha longa e variada vida de Marinha, foi a capacidade demonstrada pela generalidade dos profissionais que, sob a designação de faroleiros, representam muito mais do que essa figura mítico-romântica dos salvadores de navios, empoleirados na falésia, garantindo o alumiamento dos equipamentos à sua guarda ou fazendo soar as roncas, rompendo o nevoeiro.
O seu isolamento forçado pela situação inóspita da maioria dos faróis onde prestavam serviço, fez deles tocadores de todos os instrumentos.
Desde pescadores, electricistas, mecânicos, pedreiros, carpinteiros, pintores/caiadores, cozinheiros, marinheiros experimentados na condução de pequenas e médias embarcações, agricultores e até enfermeiros, estes homens, de poucas falas na sua maioria, tinham no gesto e na acção o seu modo de comunicar e viver.
Claro que as tecnologias que entretanto invadiram essa área vieram alterar profundamente o seu modo de estar e de fazer, remetendo-os para funções mais especializadas em locais bem mais cómodos, às vezes bastante longe dos faróis que vigiam e controlam remotamente por processos electrónicos.
Ainda assim, fica-lhes a memória do que já foram e o que ainda representam para os navegadores, que continuam a aferir os seus cálculos e leituras posicionais pela marcação dos faróis, tanto de dia como de noite.
Vem isto a propósito do lançamento pelos CTT duma série de selos alusiva aos faróis portugueses e conjuntamente do livro da autoria do Cte Teixeira de Aguilar, “Faróis – a terra ao mar se anuncia”, que retrata de forma admirável a história e evolução da farolagem em Portugal, com ilustrações soberbas. Um postal ilustrado enviado pelos CTT ao coração dos marinheiros, filatelistas e duma maneira geral a todos os que gostam do mar e de faróis, com a ajuda fundamental do Cte Aguilar.
Falta agora fazer o historial dos faroleiros antes que a sua memória se extinga.

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quarta-feira, junho 11, 2008

Doenças à parte, viva a Selecção

Quando entra a moléstia, não há santinhos que nos valham! Além disso, tenho andado bem arredado dessas práticas religiosas, o que faz, com que me encontre fora da graça de Deus.
Começou com uma dormência em dois dedos da mão esquerda, continuou-se com dores nas costas e variações de tensão brutais, com 18/12 no braço esquerdo e 14/10 no direito.
Para compor o ramalhete, estou com uma gripada dos diabos, que de noite não me deixa respirar e de dia entupindo-me as vias respiratórias, não me deixando descansar durante a noite.
Depois de corrigida a tensão por receita médica, começou a doer-me o estômago, a ter os tornozelos ligeiramente inchados.
Apesar de beber água em quantidades industriais, as xixizadas não são propriamente o meu forte.
Não é só tempo que não presta, sou também eu. Eu e a Cesária Évora, que já cancelou a maior parte ou a totalidade dos concertos agendados para este Verão.
Estou a ver que também tenho que cancelar os meus!
Disto tudo, safa-se a Selecção e o Cristiano Ronaldo!
Não há dúvida de que a DECO actuou e de que maneira.
O Nuno afinal foi só fumaça. Desta vez nem acertou na madeira. O Quaresma desenfiou-se com um golo oferecido de bandeja, pelo companheiro.
O rapaz sabe como as coisas funcionam nas UEFAS e lá vai preparando a imagem! É bom que assim seja, apesar dos meus trinta e nove graus, à sombra…

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domingo, junho 01, 2008

Outro Alentejo


Serranias em toda a volta. Sobro e azinho. Adivinha-se o Guadiana lá em baixo. Paisagem agreste mas ainda verde pelas chuvas que ultimamente têm caído e permitido que nos vales se tenha semeado um pouco de girassol e meloal. Mais para a caça do que para colher. As rolas ou atrasaram a sua viagem por falta de ventos de feição ou já não vêm. Aqui e ali saltam os perdigões, já que as fêmeas protegem as ninhadas acabadas de nascer. O gado espalha-se pelas encostas dentro das cercas com portadas de arame que é preciso ir abrindo.
Ouve-se o silêncio cá de cima, onde o conforto da mansão empoleirada no alto do monte, nos permite desfrutar a solidão como coisa nossa, não partilhada.
O Pulo do Lobo fica um pouco mais para jusante, lá onde o Rio, saído das barragens, ainda mantém a sua traça inicial.
As nuvens de grande desenvolvimento vertical dizem-nos que as trovoadas ainda espreitam e que a qualquer momento nos podem lavar a alma das mentiras do dia a dia, do cansaço da representação que, de há muito, temos em cena.
As conversas amenas, na pacatez das amizades partilhadas, fazem regressar aos tempos da adolescência, onde os problemas eram de pronto solucionados pela eficácia do gesto mais do que das palavras.
Hoje, as crateras do tempo no cinzento das têmporas ou nas calvas luzidias, mostram os trajectos percorridos pela genética, com as pinceladas coloridas que lhes vamos emprestando, nas nossas práticas de desgaste rápido – uns tintos, umas fatias de presunto montanheiro de fabrico próprio, umas tiras de queijo de Serpa ou da Serra, uns queijitos de cabra, bem salgadinhos.
Depois uns ovos mexidos com presunto do mesmo, uns pezinhos de coentrada, que estiveram três dias no sal antes de serem cozinhados, umas cabecinhas de borrego assadas no forno, que vão sendo escalpelizadas de forma ordenada e profissional, com as alfaias afiadinhas na pedra de amolar, acompanhadas por um pão saído do forno de lenha de Vale dos Mortos.
Para terminar uma fritada de achigãs, que haviam sido roubados às águas profundas e claras de duas barragens, um pouco antes, depois de bem escamados, cortados em pedaços e envoltos num polme constituído por farinha, poejos picados, sal e sumo de limão.
O tinto fez aquecer as almas que se manifestaram em coros de canto alentejano, enfeitando o silêncio da paisagem envolvente, com os seus dissonantes de sétima acima.
A paz baixou com o sol no horizonte, a azia no estômago e o regresso tardio, mas sereno.

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terça-feira, maio 20, 2008

LC - Memórias em alta


O convívio que nunca foi conseguido em muitos anos de vida activa e, como tal, ocupada com os afazeres que o serviço impunha, acontece agora, reclamando o tempo perdido.
Mensalmente, como numa contagem em que os anos se reduzissem a meses, com a sofreguidão de repor o tempo que não teve para se ocupar com a amizade alicerçada em dureza, privações, anseios, riscos mas também em alegrias partilhadas e companheirismo fraterno, ele materializa-se em estórias contadas à volta duma mesa e dum qualquer repasto conivente.
É o reatar de conversas interrompidas pela vida. É o retomar duma inocência longínqua e duma reconciliação com as memórias litigantes.
O Alentejo foi testemunha comprometida de mais um destes arrumos mensais.
Desancando uns primores da gastronomia local com prazer e parcimónia no beber, as línguas foram-se soltando em torno das preocupações, dos afazeres e de recordações recalcitrantes.
O enquadramento cénico foi dado pelo salão de festas duma sociedade recreativa local. À heterogeneidade de interesses do grupo sobrepôs-se a homogeneidade da amizade e da camaradagem, como numa fotografia em que a luz a mais apaga os contornos e esbate as diferenças.
A temperança reinou e no abraço de despedida já se anuncia o novo reencontro com a memória colectiva do grupo.
Até já!

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quinta-feira, maio 15, 2008

Um gesto em desuso


O e-Mail que suportava esta foto classificava-a como a Melhor Foto do Ano, não sei por quem, nem em que ano.
Pode até haver melhores do ponto de vista técnico e até temático, mas o momento, no caso de não ser montagem, foi extraordinário e a sorte de dispor duma câmara fotográfica para o registar, indescritível.
A acreditar que só nós, humanos, dispomos de alma, não se pode entender o retratado nesta fotografia como um gesto, mas podemos dar-lhe esse significado.
E a ser assim, só um gesto de amor implica tamanha acrobacia e empenhamento. Não costuma ser partilhado por terceiros, mas não podemos esquecer que os grandes amores sempre empolgaram multidões. Atentemos por exemplo nos amores de D.Pedro e Inês de Castro e nas histórias de amor imortalizadas por Shakespeare e por tantos escritores e dramaturgos.
Esta foto aparece, pois, como um doce gesto de ternura e amor que faz subir o sangue à cabeça e derrama os sentimentos sobre o objecto desse amor na forma de uma singela flor.
Saído da pena de Camões não seria mais "gentil",este gesto.

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domingo, abril 06, 2008

Ti Bia

A cara chupada pela vida, enfeitou-se com rugas de tanto sorrir e de tanta alegria e simpatia irradiadas.
Mulher de ninguém, é-o de toda a gente que a rodeia e adora. Franzina de muito nova e por poucas sopas, foi agarrada por doença do peito que o tempo sarou lá para as bandas do Caramulo.
As letras foram apenas as possíveis no meio da enfermidade e do trabalho, que repartiu por muitas actividades. Na última que lhe conheci, fazia figurinhas de cortiça, que colava com delicadeza e mestria.
As estórias por si contadas ganham animação a que o seu gargalhar prazenteiro dá sabor e magia.
O mundo pode estar a ruir á sua volta, mas não vai conseguir dobrar a sua vontade e pertinácia.
Não sei se pesa trinta quilos, mas a força que lhe vai lá dentro pesa que nem chumbo. É da alma, certamente.
É tia de muita gente e de mim também, por amor e adopção.

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