sábado, setembro 20, 2008

Não lembra ao diabo

Imagem daqui
Tenho-lhe ouvido chamar muita coisa, mas aquilo que é objecto deste comentário, nunca. E o facto de ser nunca, não teria nada de especial se fosse outra coisa qualquer, que não esta.
Imagine-se com a voz entaramelada devido à grossura da língua, a saliva espessa, olhar de carneiro mal morto, passo titubeante, uma vontade louca de dizer nada, um riso fácil e escarninho a aflorar em permanência aos lábios. O que se estaria a passar consigo?
Muito provavelmente diria que estava um pouco tocado, talvez com um grão na asa, porque não com uma perua, uma grossa, uma bebedeira, uma turca, uma camada, uma piela, sei lá que mais!
Pois bem, nada disso! O que você estava era com um ataque de frutose, imagine!
Frutose!
Convenhamos que é lindo!

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terça-feira, abril 29, 2008

Operação Ciclóstomo


Com o Tejo serpenteando pela lezíria e o doce balançar ritmado do pouca terra, pouca terra, lá fomos pondo a escrita em dia sobre as doenças que nos afectam e que não são só do corpo como também da alma.
Uma pausa na conversa para olhar de perto o Castelo de Almourol, uma pequena paragem em Constância e de novo o balanço do comboio.
Destino, desta vez, Belver. A barragem, ou melhor, o restaurante da barragem de Belver, mesmo no apeadeiro.
E começou o sacrifício de vencer o magnífico arroz de cabidela de “ciclóstomo”, isto é, de lampreia, especialmente encomendada e preparada para nós. À maneira! Não sei bem de quê ou de quem, porque já comi de várias maneiras, umas boas e outras más. Esta, magnífica.
Houve quem se não atrevesse nesta empreitada e tivesse optado pela açorda de sável. Mas eu enfrentei o bicho.
É curioso, como tão perto de Lisboa e tão longe dos santuários tradicionais deste especímen, se consegue uma iguaria de fazer inveja a qualquer minhoto.
Após o repasto, que foi farto, um olhar sobre a paisagem envolvente da barragem, calma, sugerindo um giboiar que o horário de regresso do comboio não permitiu.
Este “regional de vai a todas”, é confortável, permite um olhar sereno sobre a paisagem fugidia e tem a vantagem de nos trazer de volta sem constrangimentos nem receios de ultrapassagens inacabadas, de curvas mal desenhadas ou de despistes bem conseguidos.
A conversa de regresso foi mais animada, esquecidas que foram as enxaquecas, as colites, a ciática ou as nódoas negras das “colhidas” governamentais.
No final, ao bom estilo da zona, depois da volta à arena, agradecemos aos tércios e abandonámos a praça, olhos postos, já, no próximo sacrifício.

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quinta-feira, março 06, 2008

Sapateia, meu bem sapateia, ai...

Cada um faz o que melhor sabe, pode e algumas vezes quer.
Quem presenciou, hoje, o sapateado do Presidente dos Estados Unidos à porta da Casa Branca e já o havia visto a protagonizar a "dança da espada" antes, tem que lhe reconhecer o mérito.
Quantos presidentes sapateiam melhor do que ele? Muito provavelmente nenhum! Já tem alguma coisa em seu abono.
O seu regozijo bem visível terá sido reacção à sentença contra ele proferida por um tribunal do Estado do Vermont, condenando-o, conjuntamente com o seu Vice-Presidente, por crimes contra a Constituição dos Estados Unidos?
Nunca o saberemos e ele nunca se descoserá por certo. Mas que tem graça, lá isso tem! E que não foi o Presidente Hugo Chaves nem os outros comunistas sulamericanos, nem tão pouco os malditos iraquianos a julgá-lo, lá isso não foram!
Mas que apetece dançar, lá isso apetece!

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domingo, novembro 25, 2007

Provas de Fundo (do copo, da panela e da travessa)

Decorreu a quinta prova de vinhos amadores, a 4ª de sopas e a 3ª de doces da Igrejinha, cada ano com mais gente e com uma organização mais cuidada.
Começa a impor-se como evento mobilizador das forças vivas da terra, trazendo muita gente de fora e constituindo oportunidade não dispensável pelas forças políticas instaladas, que têm possibilidade de exibir as ajudas prestadas e sentir o calor que a pinga sempre põe nestas coisas.
Esteve bem em termos de oferta e procura no que respeita a comes e bebes e a separação, este ano intentada, da parte de animação cultural da zona de repasto foi parcialmente conseguida, diminuindo francamente o barulho que não deixava ouvir os grupos de danças e cantares que ali se apresentavam, em anos anteriores.
Este ano, a falta de participantes na prova de vinhos foi compensada pelo número e qualidade das participações na mostra de doces e sopas.
Não foi um bom ano de uvas e portanto de vinho, este que decorre. As geadas tardias, granizos e chuva na altura das vindimas, já haviam sido aqui assinaladas como factor muito comprometedor desta safra.
O facto levou a que muitos dos “fazedores de vinho amador” não quisessem arriscar e com razões de sobra.
Ainda assim, arrisquei e perdi. De facto a pinga não ficou, este ano, ao nível a que eu já me habituara a mim e aos meus amigos.
Como convidado, assisti às provas e apreciei bem as caretas e comentários depreciativos dos enófilos provadores, atestando dessa forma, sem margem para qualquer dúvida, a má qualidade dos vinhos em prova.
Mas o vinho correu em quantidade apesar disso, entre os convivas, já que a organização pôs à sua disposição três pipas com vinhos das adegas da zona, com provas dadas no mercado nacional e internacional.
Parece mentira que uma região tão pequena, junte cinco produtores de nomeada como a Tapada de Coelheiros, Monte do Pintor, Herdade da Calada, Outeiro da Esquila e Monte das Ânforas. Que à sua volta ainda se produzam outros néctares, conhecidos também dos apreciadores do Vinho Regional do Alentejo, nas herdades da Comenda Grande, da Ravasqueira e das Moiras.
Quanto às “sopas da nossa terra”, como é a designação da prova, contou com paladares bem diversos mas bem conhecidos dos gastrónomos alentejanos, desde os feijões com batata, com espinafres e com nabos, passando pelas sopas da horta com vegetais variados, caldo verde, até ao creme de favas.
Os doces regionais distribuíram-se pelos mais variados sectores da guloseima, desde os de requeijão, aos de gila, não esquecendo os de amêndoa e ovos, de noz, de torresmos, de vinagre. O arroz doce não faltou.
A festa impôs a inviabilidade do acesso directo a uma estrada nacional durante dois dias e o corte de energia eléctrica durante três horas, mobilizou mais de cinquenta pessoas, obrigou à montagem de duas tendas, com uma área coberta de cerca de 600m2.
Foram transformados em matéria assimilável pelo comum cidadão, um novilho, um veado, uma ovelha, mais duma centena de frangos, além dumas dezenas de quilos de febras. A música tradicional e etnográfica esteve presente a nível aceitável, com especial melhoria na prestação do grupo de cantares local.
Palmas para organizadores e participantes e água da pedras para mim.

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sábado, novembro 17, 2007

Na rota dos vinhos

Lá fui gastar algum dinheiro. Não muito, que o frio aperta a bolsa.
A falta de GPS, levou-me directamente ao sítio desejado sem mais delongas.
Entre pilhas de pedra mármore à espera de melhores dias, lá se descortinaram as barracas de lona com a indicação de que ali era o local em que a festa do vinho e da vinha, deveria ter lugar.
Cá fora, alguns expositores mostravam algum material e equipamento para tratamento das vinhas e para uso nos lagares e adegas.
Rumámos para as tasquinhas onde as iguarias que fazem a desgraça de quem vive por estas paragens, se apregoavam em cartazes e menus.
Optámos pelo coelho à caçador, para fazer as honras ao dito cujo. Comeu-se bem acompanhado com uma pinga da adega cooperativa local, de encher a boca e mastigar. Pouco, por môr do balão mas, ainda assim, o suficiente para alumiar a senda.
Depois duma volta ao redondel, com cortesias para os doces conventuais, queijos de ovelha e cabra e enchidos de porco preto, lá deparámos com a mostra de vinhos regionais alentejanos com destaque para os das adegas locais.
Depois dumas mercas sem grande significado, demos de frosques antes que as cantorias começassem e a barulheira tomasse conta do espaço exíguo para tanta gente, muita dela já animada.
O regresso foi penoso, com a soneira a tomar conta do timoneiro.

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quinta-feira, agosto 16, 2007

Aconteceu na Igrejinha

Sabem onde fica? Procurem no mapa! Para lá disso! Atrás do Sol posto, depois de ter deixado os camelos a beber ali ao Rato, onde outros já beberam em tempos, e ter atravessado o deserto.
Pois bem, ia eu a dizer que aconteceu o inacreditável numa terra pacata por natureza, onde as coisas costumam acontecer só nas Telenovelas. Pois é! Mas não foi assim!
Num dos café-restaurante da localidade teve lugar a Festa da Cerveja. Mudando a tradição que manda beber vinho e do bom, nesta região abençoada pelo sol quente, que põe açúcar bastante nas uvas e as carrega com aromas que se sentem no palato ao degustar estes néctares que por aqui se produzem.
Houve então festa da cerveja, porque há emigrantes que chegaram, que vêm cheios de sede e com alguns francos suíços no bolso que é preciso aliviar. A festa foi ao bom estilo pimba, com música de pular o pé, barulhenta que chegue e que faça suar para que a cerveja corra célere pelas goelas dos convivas.
E correu. Abundantemente! A par dos “shots” com que os mais jovens se julgam a entrar na Europa pela onda do absinto quente e doutras bombas com nomes inapropriados que me inibo de reproduzir, por desnecessários. Correm mais o risco de entrar nas urgências dos hospitais do que na tal de Europa. Mas enfim!
Já a noite ia alta, quando a banda fez um intervalo e foi anunciado o prato forte do festim – o “striptease” - com dois artistas vindos especialmente da “Linha”, para ali se descascarem.
E espanto meu! No meio do Alentejo das “saias” e dos cantos de grupo arrastados, da gente tisnada pelo Sol, de mãos calejadas e a cheirar a suor, nesse Alentejo de cartaz, aparece um homem a despir-se, com cuecas fio dental, a cheirar a “Davidof” e a bambolear-se para gáudio do gineceu presente e assobios da clientela androceica. Depois ela, de mamocas “montadas” no crescente mercado das clínicas do silicone, redondinhas, cabeleira abundante com extensões importadas da Índia e registos capilares diminutos nos locais mais recônditos, estilo bigode de Hitler, de design apropriado. Do lado direito, correndo do umbigo para a virilha, uma tatuagem que a distância e a fraca luminosidade do local não deixaram avaliar em termos artísticos. E lá se esforçou por dar uns requebros, com alguma sensualidade conseguida. Não tanto quanto a Kim Bassinger nas “Nove semanas e meia”, mas ainda assim, bastante bem para o meu gosto e da restante parceirada masculina. Parece que houve repetição mais tarde e com outros condimentos mais picantes, que já me não foi dado assistir, pelo adiantado da hora. Não dá para acreditar!

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sábado, julho 28, 2007

Verão e "Albornes"*

Imagem daqui

Finalmente o Verão. Serôdio, mas ele aí está. Não sei se para ficar! Alegrem-se os veraneantes “agostinos”, porque parece que vão ter sorte.
Ontem, numa roda de amigos, bebeu-se vinho branco fresquinho à volta de “albornes” de escabeche mais uns franguinhos de churrasco, feijão-frade com atum e umas quantas saladas com sabores de manjericão, orégãos e outras aromáticas.
No final jogou-se sueca, molhada com Ballantines de 30 dias de casa.
Acabou a jogatana quando a azia já não deixava contar os pontos e a discussão aquecia.
Ali ao lado, os gritos dos pavões acalorados na sua roupagem vistosa de Inverno.
Lá ao longe, adivinhava-se música de arraial comemorativo do 31º aniversário do Centro Recreativo local. Com a presença dos altos dignitários concelhios e locais. E dos sócios e amigos. E dos penduras que não perdem pitada, mas que ajudam à festa.
A noite já ia larga quando nos despedimos dos amigos e nos preparámos para dormir.
Mas não consegui. Os “albornes” saltavam-me no estômago navegando entre ondas de Bucelas e Pedro do Chile. Melhor este que o outro. Não admira. O Chile estende-se por latitudes que vão dos calores subtropicais aos frios austrais do Cabo Horn e da Terra do Fogo. Em altitude, espraia-se ao longo do Pacífico e alcantila-se até mais de 3000 metros pelos Andes.
É certamente fácil arranjar com estes dois elementos – latitude e altitude - locais para cultivar as castas mais adequadas de uvas para a preparação desta pinga branca e de outras tintas, que não ficam a dever quase nada ao que melhor por aí se faz. Com o tempo, estou em crer que o Chile dará cartas nesta área.
Com o dealbar da madrugada, os “albornes” cansados de tanto pular, acalmaram e finalmente devo ter adormecido.
A pensar em coisas frescas nesta cálida noite de Verão.
* ou Ablete? - Espécie de peixes (Cypriniformes), recentemente reintroduzidos em barragens portuguesas, que fazem lembrar as bogas ou as pardelhas (Menores que as primeiras e maiores que as segundas)

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domingo, novembro 26, 2006

Era o vinho...

Era o vinho, meu Deus era o vinho
Era a coisa que eu mais adorava
Só por morte meu Deus, só por morte
Só por morte o vinho deixava
(Letra e musica popular)
Imagem retirada do site
Entre as coisas, que nesta fase da minha vida, me dá mais gozo e me deixa feliz, é o ver crescer os meus netos em perfeito equilíbrio físico e mental e desfrutar da salutar pacatez a que me remeti, há cerca de dois anos. Nessa pacatez cabem as tarefas básicas de jardinagem, pesca e caça e as outras de natureza mais pragmática relacionadas com a manutenção do espaço em que me movo. Para completar o ramalhete e dar algum sentido, sabor e colorido a esta vivência, guardo memórias, ainda que truncadas e corroídas pelo tempo e, com a ajuda de amigos, tento fazer uma pinga, a partir de uvas próprias e adquiridas a produtores de reconhecida qualidade da região. Pelo quarto ano consecutivo, temos vindo a fazer um vinho, cuja qualidade tem vindo a melhorar, ao ponto deste ano ter granjeado o mais alto galardão atribuído a vinhos amadores nesta freguesia, entre trinta e oito concorrentes, numa festa que teve início precisamente há quatro anos. Veio depois juntar-se no ano seguinte uma prova de sopas e de há dois anos a esta parte, uma prova de doces regionais do Alentejo. Os duzentos e cinquenta litros desta pomada, já têm endereço. Destinam-se a apaladar a vida aos meus familiares e amigos. Com eles brindarei a um futuro mais risonho, mais justo e fraterno, à imperatividade de ser feliz, ao direito a dizer não, à liberdade de dizer sim!
Peças de bombordo…..Fogo!....PUM!
Peças de estibordo……Fogo!...PUM!
Enquadrou!... PUM!PUM!PUM!
Vai a cima, vai a baixo…
Vai a cima, bota a baixo…

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