sábado, março 13, 2010

Sonhos estrelados


Estou em crer que todos temos uma estrela dedicada e cintilante que nos enfeita a noite e nos ilumina os sonhos.
Não sei o nome da minha mas vejo-a lá no alto, empoleirada, espreitando-me a cada instante da longa caminhada até ao amanhecer.
Sussurra-me, como o antigo ponto do teatro, dando as entradas, aponta-me as marcações, sugere-me o gesto e a expressão.
Brilha com as minhas alegrias e sucessos, esbate-se-lhe a luz na névoa das minhas preocupações e anseios.
Em cada ocultação sua sinto o frio gélido do nada devassar-me a tranquilidade do sono.
Acordar, é cada vez mais um acto doloroso, sem estrelas e sem sonhos.

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quarta-feira, janeiro 13, 2010

Um outro olhar sobre o Rio

O Rio Tejo esteve desde sempre ligado ao estabelecer da nacionalidade, que se iniciou a partir do Norte, mas que nele se fixou definitivamente com a conquista do Sul e o empurrar dos Sarracenos para África. Havia que garantir a administração do território e nada melhor do que a partir do centro, com um rio que permitia facilmente reforçar a defesa das instituições aí estabelecidas para o efeito, se necessário.
Lisboa passou a ser desde muito cedo o coração deste País que se atreveu a enfrentar as iras do Mar Oceano desconhecido e temeroso. E tudo se fez a partir do Tejo, que constituía rada perfeita e segura contra ventos e intempéries e possuía largo e fundos adequados para demanda e manobra. Lá, se prepararam as armadas que partiram em busca do novo mundo. Aí, chegam e partem hoje os navios que ligam o novo e o velho mundos. Nele, se espraiam os nossos olhos e a cidade que embala como um bebé.
Rio de uma só margem, por ela se enfeitiçou e nela derramou o odor do manjerico e a cor do Sol poente, numa aguarela de luz e som, que nos acalenta a alma e embeleza o olhar.
Olhares que sobem aos telhados vermelhos do casario entalado entre igrejas e ameias e descem escadarias que se atiram ao Rio, que correm para o Mar.
O fado que se escuta pelas vielas, que os rufiões transportam no seu andar gingão e na voz rouca das imprecações que os precedem, afoga-se no Rio com as mágoas do amor traído e os arranhões da alma, ferida pelo ciúme.
Tudo o Rio lava e branqueia como em barrela.
Tudo o artista deixa na tela, num espectáculo feito de luz e amor.
(Aguarelas de Martins Pereira, edição da Transtejo)

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quarta-feira, outubro 22, 2008

um velho dia, um novo lamento

um sol mortiço
um soluço contido
uma lágrima furtiva
num abraço adiado

bagas secas douradas
ao sol poente
chuva de prata
em quarto minguante

fumo branco de queimada
terra preta arroteada
mão em prece erguida
esperança sempre renovada

um Deus esquecido
um amor traído
um travo amargo
em bocas famintas de alegria

luz negra de farol apagado

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quinta-feira, março 27, 2008

Dr.Zé Portuga, muito prazer

De entre os papéis que hoje remexi, uma vez que o tempo não estava de forma a que pudesse dedicar-me a tarefas de exterior, saltou-me um livro de textos simples mas extremamente incisivos, anarcas na marca e no estilo, impressos em papel reciclado, com ilustrações sarcasticamente lúgubres a carvão, da autoria de João Viegas e publicado pela Moraes Editores.
Resultou duma compilação de textos difundidos no Programa “As noites longas do FM Estéreo da Rádio Comercial”, entre Fevereiro e Novembro de 1982.
Não resisti a reproduzir um que reputo de ilustrativo e de sempre actual para a maneira de ser do Zé Portuga.

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domingo, março 02, 2008

O Mar que em mim vive

De mil cores e facetas
Ligando esperanças e separando afectos
De chegadas e partidas
De dor e lágrimas
Mar de outrora, mar de hoje
Sempre longo e fugidio
Sem dono nem gerente
De descobertas e mistérios
Já foi horizonte, já foi estrada
Já foi génese e destino
Mar de logros e de Musas
Do cantar das sereias
De Camões e de Homero
Mar sem longe nem perto
Espelho de deuses e de estrelas perdidas
No azul imenso sem barreiras…

Por isso te amo
Por isso te respeito e te temo

ZEF 2008

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quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Ventos de Amura


O vento pela amura não se sabe nunca para onde nos leva. Vamos para donde ele sopra. À procura da sua origem, da sua razão de ser. Até que as forças nos faltem ou que o vento se amaine.
Nesta minha orçada de há meia dúzia de anos, tenho navegado por outras águas, eventualmente menos turvas, mas não menos turbulentas.
Quem navega tem sempre como destino a terra. Terra firme. Sem balanço. Com cheiro a lençóis lavados e saudades que esperam.
O encalhe aparece muitas vezes como um acidente de percurso, quando ele próprio se não almeje como tal.
Nas voltas da maré e com o pé sempre molhado, os olhos no horizonte, parti em busca de coisa nenhuma ou de tudo, não sei bem.
Encontrar-me na minha meninice, nas tresloucadas descobertas juvenis, nas insensatas aventuras adolescentes, faz-me ir descortinando que adulto teria querido eu ser. Amante da terra que me viu nascer ou namorado das terras com que sonhava? Tendo optado pela última, não me esqueci da primeira.
Encontro-a como eu, sofrida e envelhecida de morte. À minha espera! À espera que lhe dê a ternura que outros lhe roubaram. Enternecida agora pelos carinhos com que a envolvo, devolvidas que foram as branduras nocturnas, os orvalhos matinais, os despertares harmoniosos dos apaixonados.
O Sol já não aquece tanto, mas o frio também não é o mesmo. Só os rouxinóis continuam a enfeitar-nos as noites com o seu cantar.

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segunda-feira, outubro 22, 2007

Décimas sem mote, porque uma rosa é uma rosa, é uma...rosa

Já me perdi pelo mundo
Já nele me encontrei
Algumas vezes me cansei
Do muito que já vivi
E de tudo aquilo que vi
Resta-me agora pensar
A quem vou eu dar
Esta rosa que colhi
Que de entre todas escolhi
Para ver e para cheirar

Rosa bonita e cheirosa
Apesar dos teus espinhos
Alegras os caminhos
Enfeitas a minha prosa
Fácil e enganosa
Com teu intenso perfume
Acendes no peito o lume
Que te há-de um dia secar
Como a dor dentro do peito
Arderás do mesmo jeito
Até o odor se acabar

Tão frágil e singela
Que linda é esta flor
Tal e qual como o amor
Faz da menina, donzela
Pondo nos olhos dela
Do mar, o azul sereno
Do luar, o suave e o ameno
Um raio de luz e esperança
Fazendo da sua trança
Um voto de amor pleno

Rosa branca, rosa pura
Ou desmaiada tão só
Tenho no peito um nó
Que já há muito perdura
Feito de amor e ternura
Gostava de o desatar
Bastando para isso cheirar
Teu perfume, teu olor
Já sinto no peito o calor
Que um dia o há-de soltar

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terça-feira, julho 24, 2007

Onde

Onde as coisas são como são, sem disfarces, embustes ou sofismas. Onde o Sol nasce depois dos galos cantarem, a orvalhada substitui a chuva que não cai e os rouxinóis cantam à noite nos choupos da ribeira. Onde as cigarras trinam à desgarrada com os grilos e os chaparros se transformam em sobreiros. Onde a campina se junta ao céu desfazendo o horizonte, numa prece não atendida. Onde a alma foge do corpo e atira décimas à padroeira. Onde Deus quis e não quis e largou o seu rebanho. Onde se cose a carne partida e o nervo quebrado. Onde manda o Suão mais do que a Nortada. Onde a voz serpenteia no ondular das searas. Onde a luz branqueia o olhar e a calma estival escurece a tez. Onde o azeite e o alho são remédio para todas as maleitas. Onde se resiste para viver e se vive resistindo.
É aqui! Aqui, ao lado do meu peito!

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domingo, junho 24, 2007

Do Sal Amargo

Sou
Na gaivota que passa e grita
Um estranho que não passa nem grita
Sou
Um mar sulcado por todas as rotas
Que ninguém fixa
O esquecimento de mim também é meu
Como a solidão é nossa
E a beleza de ninguém
Sou
Um equívoco no seio de tanta certeza
De tanta fé sem esperança
Quisera fugir de mim e te encontrei
E me perdi
Porque outro não eras senão eu
Eu
Que vi tantas vezes nascer o Sol
Ali por detrás da noite sem estrelas
Eu
Que do mundo não conheço
Senão a voz adulterada da História
Sou e não sou

ZEF (1966)

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sexta-feira, junho 22, 2007

Do Vento Cinzento (4)

foto daqui

abre
abre essa porta ao vento que sopra
para que ele te refresque
te consuma e te renove
aproxima-te do fogo, queima-te um pouco
e em seguida delicia-te com a água fria
colhe rosas no meio dos espinhos
para apreciar melhor o seu odor
abre
abre essa porta e deixa que o mundo em flor entre em ti
te enfeite e te perfume
ri, ouve o som do teu riso
e perceberás o desperdício de chorar
abre
abre essa porta à verdade disfarçada na voz das gentes
grita as tuas alegrias e as tuas tristezas aos sete ventos
abre
abre essa porta

ZEF(1965)

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terça-feira, junho 19, 2007

Do Vento Cinzento (3)

Queria...
poder preencher esse vazio que em ti existe
com o calor que em mim fizeste nascer
Queria...
poder fazer com que te encontrasses
depois de me teres achado
Queria...
poder conseguir que risses de verdade
com a alegria que em mim criaste
Queria...
poder mandar que fosses feliz
depois da felicidade que me deste
Queria...
poder trocar o mundo que em ti vive
pelo mundo que sonhei para mim
Queria...

ZEF (1965)

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domingo, junho 17, 2007

Do Vento Cinzento (2)

fecha os olhos
dá-me a tua mão
e juntos corramos contra a memória
pelos verdes prados da imaginação
deixando que o Sol te encha a noite
os pardais façam amor por cima das nossas cabeças
as flores desabrochem na palma da mão
a música suave do meu carinho te entre pela pele
os teus olhos distribuam ternura
os lábios murmurem promessas
a alma sorria feliz
vem
vem comigo passear na Primavera

ZEF (1965)

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sexta-feira, junho 15, 2007

Do Vento Cinzento


Foto daqui

Em tempo de arrumações, fui encontrar uns papeis, velhos de quarenta anos, onde de forma pretensiosa, ensaiava alguns passos na poesia, tal como reza a letra da última música do Pedro AbrunhosaTirem-me os meus fantasmas e digam-me onde é a estrada.
Valem pela tentativa.

Segue o primeiro.

A pluma que o mundo arrasta da memória
e o vento agita
Escreve cruzes na testa dos mendigos
Tatuagens no coração das donzelas
Pinta estrelas no Céu do meio dia
Rouba as vísceras dos poetas que cantam e choram
Grita nos olhos dos vivos o horror dos mortos
e lapidifica a sua eternização
O Sol que afaga a face com o seu travo de sal
Rebita nos espíritos a luz da razão
e indica para sempre a sua esteira
Da pluma sai
e da espuma se liberta
Como a alegria dos olhos
O Homem do seio dos homens
A fé das bocas que oram e se desejam
O sal das lágrimas
A esperança das mãos que se apertam

ZEF (1965)

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quarta-feira, março 21, 2007

Sopros de alma

O vento corre-me as têmporas
Em arremedos de Novembro
Num esvoaçar de folhas caídas
De cansaço
A paz perdida em novelos
De coisas pensadas
E esquecidas
E relembradas
E sofridas

A vida toldada
Em cinzentos matizados
De dor e encanto
Tempero da vida
Rescaldo de fogos e mares
De pertos e de longes
De luz reflectida
Qual Sol de Inverno
Em tempo de espera
O vento que seca e foge
E apaga a vida

ZEF

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