terça-feira, junho 16, 2009

Água de lavar

Uma das vantagens de quem se afastou da grande urbe e se refugiou no aconchego e calmaria da ruralidade, é o olhar para o que à sua volta acontece e fazer de conta que se trata de ficção televisiva, de telenovela brasileira mal representada ou de talentosa garraiada à portuguesa.
Real, só a chuva espessa como o enxovalho da rosa nesta campina ardente e sequiosa. A água caiu em jorros, como se o céu estivesse roto. O pó, tornado lama num repente, encheu valetas e coxias, galgando patamares e soleiras, esgueirando-se por frinchas e sarjetas.
Da tempestade, só o ribombar dos trovões se prolongou bem para mais duma hora, lembrando aos pecadores a necessidade de manter limpos riachos e ribeiros.
O ar lavado, ar festivo e domingueiro tomou conta da aldeia, pintando de sol o branco das suas paredes, onde se não escrevem slogans políticos e onde apenas se afixam reclamos de festanças.
Sei que tudo vai secar num instante, mas sei também que as águas novas são sempre uma esperança de sementeira.
De memórias lavadas e refrescada a razão, olho de novo para o faz de conta da televisão.

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sábado, março 14, 2009

Cortiça - Flutuando sobre a crise

Flutuando no tempo e nas aplicações, a cortiça descobre novos horizontes e abre novas áreas de negócio e de mercado, adaptando-se às mudanças tecnológicas e resistindo à concorrência doutros materiais.
Menos poluente no processo de recolha e transformação, com uma duração invejável, a sua utilização remonta aos primórdios civilizacionais e parece projectar-se para lá de todas as expectativas.
Outra vantagem desta matéria-prima reside no facto de não ser necessário o sacrifício da árvore para a sua extracção, permitindo ainda a coabitação com outras formas de exploração agrícolas, pecuárias e cinegéticas, rentabilizando o espaço de plantio.
Depois de ter sido esquecido e maltratado durante anos, o montado começa agora a ser recuperado de forma mais ou menos equilibrada.
A maior consciência que vai sendo criada entre os agricultores no aspecto de preservação da natureza, incluindo solos e seu revestimento vegetal, leva-os já a substituir lavouras profundas por limpeza arbustiva dos montados, renovando a vitalidade que lhes ia faltando o que permitirá num futuro próximo a sua reabilitação, melhorando a qualidade da cortiça.
Cortiça, que tem um aproveitamento total, sem quaisquer desperdícios. Até agora, a sua maior utilização residia na manufactura de rolhas e revestimentos. No entanto, o seu uso projecta-se já na integração em compósitos industriais de aplicações variadas e muito mais abrangentes, abrindo-lhe as portas do futuro. (Vidé National Geographic – Portugal de Março 2009)
O Alentejo pode ajudar a debelar a crise com uma gestão equilibrada dos seus recursos. É com alegria que hoje se encontram em número crescente montados limpos, com cobertura vegetal controlada por exploração pecuária apropriada em espécies e número.
É bom que Portugal saiba manter este bem patrimonial tradicional, que tão bem tem resistido à erosão do tempo e das más práticas florestais.

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quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Finalmente o Sol

Imagem daqui

Radioso sobre um céu azul como a alma dum nortenho, reflectindo, nas poças da chuva recente, cambiantes de verde e amarelo, num festival de luz e cor.
Os raios inclinados do Sol têm música saudando a chegada das primeiras andorinhas, têm ritmo e movimento das máquinas sangrando a planura encharcada, no preparo da terra para as culturas de Primavera.
Carraceiros e bibes ondulando por cima dos tractores, enfeitando a faina, na busca de minhocas e outros vermes expostos na arada.
As caras se abrindo como que saídas dum pesadelo de névoas e sombras, de tumbas e círios, do crocitar de corvos e gralhas.
A mão em concha sobreciliar protegendo da crueza da luz o cristalino, buscando horizontes mais largos, a esperança longínqua.
A vida retempera-se da dormência a que foi obrigada e, alheia aos discursos dos políticos, parte em busca duma réstia de futuro.
Hoje, sim! Finalmente o Sol, embora em véspera de sexta-feira, 13.

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quinta-feira, agosto 28, 2008

O Sangue da Terra


Já cheira a vindimas, por tudo que é sítio, neste Alentejo monocultural.
Dantes, eram as ceifas, as debulhas e os palheiros, hoje as vindimas, as adegas e os vinhos. Tudo, fruto do Sol. Deste sol escaldante que aloira o trigo adoça a uva e tempera a alma deste povo transtagano.
Como na Última Ceia, celebra-se o pão e o vinho. O corpo e o sangue desta gente, tantas vezes crucificada e sangrada.
As vindimas começam aqui mais cedo. A maior parte das adegas já abriu as suas portas ou está em via de as abrir. Embora grande parte das vindimas já se faça de forma mecânica, perduram ainda as que são feitas pelo processo tradicional de apanha manual, que animam as pequenas aldeias, chegando mesmo a ter que ser recrutada mão-de-obra de fora.
A azáfama nas adegas cooperativas é enorme, sendo necessário estabelecer prioridades na apanha e entrega da uva, para que não caia ali toda em simultâneo e crie entropia no sistema.
Nas adegas particulares tudo se faz de forma mais calma e ordeira, começando pelas castas mais precoces no amadurecimento até àquelas mais tardias, permitindo uma gestão mais eficaz dos meios humanos e materiais.
As minhas uvas ainda estão num estádio de amadurecimento incipiente, necessitando de mais um mês em cima para que se lhes conheça o açúcar.
Não vou poder esperar para adquirir a uva com que vou fazer o vinho este ano, que espero venha a ser bem melhor do que o do ano que passou.
Espero bem, que nos finais de Novembro, e parafraseando mais uma vez um camarada já desaparecido, possamos reunir-nos em torno das nossas crenças e descrenças, erguer os nossos copos e, em uníssono, dizer: - Oremos e decilitremos!

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terça-feira, agosto 26, 2008

O Último Passeio

Foto daqui

Após muitos anos de afastamento da vivência da minha cidade natal por razões que se prenderam com as opções profissionais, retomei-a há pouco tempo, duma forma mais ou menos regular.
Obviamente, que se notam imensas diferenças comportamentais e de hábitos das pessoas, em parte motivadas pela reinstalação da Universidade que trouxe muita gente jovem, com mentalidade e atitudes que, a pouco e pouco, foram influenciando a cultura residente.
A democracia também pressionou e ajudou a abrir mentes e a repor tolerâncias esquecidas.
A televisão veio compor o ramalhete, fazendo os homens ficar em casa e miscenizando a cultura local com culturas externas, primeiro a brasileira através das telenovelas, coisa que assolou todo o país, depois a cultura de violência com carimbo norte-americano, sobretudo.
Deixei uma sociedade essencialmente rural e machista, com um pequeno comércio tradicional, nada competitivo, sem vida cultural e com interesses reduzidos a futebol, copos e conversas de café para os homens e vida exclusivamente doméstica para as mulheres.
Os pais ainda fiscalizavam a vida privada dos filhos, sobretudo das filhas, velando para que conseguissem manter a virgindade até ao casamento que, na altura, era praticamente o único objectivo e asseguraria a tranquila continuidade e a sensação do dever cumprido.
Retornei a uma sociedade urbana de comércio e serviços altamente competitiva, com seis ou sete grandes espaços comerciais, algumas empresas agrícolas viradas especialmente para a vitivinicultura em detrimento dos cereais, praticamente sem campesinato, e com alguma animação cultural.
Ficaram porém alguns hábitos que julgo têm que ver com a própria configuração da cidade que tendo aumentado em dimensão, se não alterou muito a nível de centro vital do burgo, onde ficam os serviços camarários, os bancos, os principais cafés e restaurantes, o próprio centro histórico. Pois é aqui que todas as manhãs se reúnem os homens, sobretudo velhos e desempregados, para conversar e dar conta do que se passa.
É também aqui, na Praça do Geraldo, que todos os dias, se afixam num placard, que já vinha do meu tempo, os óbitos registados no dia, substituindo o toque dos sinos das igrejas que antes se faziam ouvir e que ainda soam pelas pequenas aldeias e vilas.
É este, o derradeiro passeio e encontro das gentes da cidade, ali mesmo no centro histórico, por onde toda a gente passa ao longo da vida.

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sábado, março 15, 2008

Alentejo vivo!


Sábado, dia de mercado em Estremoz.
É espantoso o número de pessoas que ali se desloca para vender, comprar ou somente apreciar o colorido de tudo aquilo.
Pelo chão em cima de mantas ou plásticos, em bancas improvisadas, em carrinhas abertas, de qualquer maneira e feitio, por ali se estendem velharias, bijutarias, artesanato, flores, plantas de ornamentação, árvores de fruto, produtos hortícolas para plantio misturados com pintos de primeiro dia e poedeiras pedreses. Ali funciona também um verdadeiro mercado de abastecimento de legumes e hortaliças, ovos, aves de capoeira e coelhos.
No café próximo, os quintaneiros e lavradores, em seu traje melhorado com bota de atanado e boné descaído sobre um dos sobrolhos, fazem negócios sobre as mesas, numa algazarra de vozes cantantes e curtidas por mil sois.
Já não via uma cena assim desde os meus verdes anos, às terças-feiras de manhã na Praça do Geraldo e no Café Arcada, em Évora.
Levava a incumbência de adquirir 1200 pés de cebolo tardio para plantio. Não foi fácil já que a quase totalidade dos fornecedores deste tipo de produtos, só tinha para venda cebolo temporão. Mas dada a quantidade, um deles mandou a mulher ir a casa (suponho que à estufa), apanhar e trazer a quantidade solicitada, tendo para isso que esperar cerca de hora e meia que gastei apreciando o latejar daquele coração vigoroso.
As camélias rubras, brancas, matizadas, singelas e dobradas, ressaltavam dos verdes escuros da folhagem. Mais atrás espreitavam timidamente as sempre noivas brancas, franzinas, delicadas.
As murtas, o rosmaninho, o alecrim espalhavam-se por todos os cantos em pequenos vasos.
As bancas dos legumes, hortaliças e fruta, além de nos presentearem com o seu colorido, ofereciam-nos odores dos orégãos, dos poejos, da erva-cidreira, da hortelã e dos coentros. Podiam ver-se por todo o lado os mimos da época como os espargos verdes do campo e as "silarcas".
Entre as velharias destacavam-se os cobres na forma de objectos de uso esquecido nas lides domésticas ou do campo. Aqui e ali algumas faianças, imagens e objectos de arte sacra em talha. Mais adiante um conjunto de seis ou sete grafonolas, com as suas cornetas amplificadoras e manivelas de dar corda. Uma, tocava uma música de jazz pela orquestra de Benny Goodman, em disco de 78 RPM.
Fartei-me de dançar ao som do rock’n roll do Bill Halley ou dos slows dos Platters, saídos destes engenhos, mais tarde substituídos por pic-ups, estes já eléctricos e com velocidade controlada, que permitiam rodar discos de vinil a 45 e 33 RPM.
Depois de mercar uma machadinha e um crivo, além dum cata-vento com a forma de um cão e, já na posse do meu cebolo tardio, regressámos com passagem pela Serra d’Ossa e almoço num restaurante da Aldeia da Serra – O Chana – onde degustámos verdadeiras preciosidades da cozinha alentejana, acompanhadas dum tinto do Redondo, agradável. Valeu a pena ir ao Mercado!

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