sexta-feira, julho 16, 2010

O Sagrado

A maior parte das pessoas não se dá conta do que significa respirar.
Sabem-no bem aqueles que já estiveram em situações de apneia prolongada ou que de alguma forma sentiram o halo de vida escorrendo-lhe por entre os dedos, como enguia fugidia.
Para estes os sons agudizam-se, os cheiros refinam-se e o olhar distingue o sexo dos anjos. Cada segundo é vivido como uma hora, cada dia está ligado à ideia de eternidade.
As referências passam a ser outras e os valores também mudam. A solidariedade dá muitas vezes lugar ao egoísmo e a emoção determina as escolhas.
A ideia de normalidade perde-se e os temores divinos e morais esvaem-se.
Respirar deixou de fazer parte das funções vitais automáticas para se tornar num treino permanente de sobrevivência vascular e cerebral.
A respiração é o que neste momento elevo e celebro como sagrado.

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sexta-feira, março 05, 2010

O Cabo das Tormentas

"Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca …. "
Lusíadas, Canto V, Est.L

Todos temos o nosso Cabo das Tormentas, que tentamos dobrar com maior ou menor dificuldade.
A bolina cerrada a que me obrigo, neste momento, não sei se dará para o conseguir num só bordo.
Tentarei a manobra de virar em roda se a tanto for obrigado, mas prefiro sempre manter o vento de amura, enfrentando a procela, mesmo que me imponha vários bordos.
Retorno aqui à minha frase de apresentação do blogue – dai-me a rota mais difícil e percorrê-la-ei. Não, agora, com os meus companheiros de bolina, porque é uma rota solitária, sem destino certo e com escolhos.
Navegarei por rectas de direcção e distância, tentando manter proa firme ao Sol Nascente.
Evitarei fundos esparcelados e manter-me-ei atento aos odores do alecrim, dos coentros e da alfazema.
Resistirei à tentação do azeite e do alho e desconhecerei a obstinação do pão de trigo.
Um dia chegarei e beberemos e decilitraremos.
O Cabo das Tormentas é também o da Boa Esperança.

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sexta-feira, agosto 21, 2009

Sal e Enxofre


Depois da doença das vacas loucas, as várias estirpes de vírus que nos têm vindo a assolar, a juntar àquelas pragas que já nos vão consumindo de há uns anos a esta parte como o cancro, a hepatite B e a SIDA, faz acreditar que a Humanidade está debaixo de fogo cerrado, como se a ira divina se estivesse a abater sobre as nossas cabeças, tal como se clama terá acontecido sobre Sodoma e Gomorra.
A assim ser, as razões celestiais serão essencialmente as mesmas. A depravação moral que por aqui grassa, o afastamento progressivo dos valores de humanidade e espiritualidade a favor do saciar dos desejos mais mesquinhos, egoístas e perversos tem-nos vindo a atirar para o vazio e solidão em que nos encontramos.
A fluidez emocional fomentada pelo faz de conta telenoveleiro, desagrega a sentimentalidade e promove a fatuidade, todos os dias transportada para as manchetes dos jornais e revistas cor de rosa.
Os valores da solidariedade, do companheirismo, da amizade, do colectivo esbarram diariamente na busca do pódio e da ribalta sociais, que é preciso alcançar de qualquer jeito, à custa do que for necessário.
O imediato e efémero virou objectivo fundamental dos nossos tempos. A moda e os media dominam a sociedade em que vivemos, padronizam-nos a vida e só nos deixam ser felizes daquela maneira.
Não há escapatória para quem queira afirmar-se por padrões de conduta social e moral impolutos e solidários.
A política que tinha aqui um importante papel a representar na escolha desses padrões deixou-se também ela enredar pelos caminhos tortuosos do poder e descambou na imoralidade instituída, na Porca de Bordalo Pinheiro.
Não espanta, pois, que os Deuses estejam contra nós e nos queiram apagar da face da Terra.
Vencemos e banimos a tirania e qualquer dia estamos clamando por ela!
Que os Deuses se apiedem de nós!

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segunda-feira, junho 08, 2009

Mudam os tempos, mudam as vontades

Pois é!
O tempo é de mudança. Chove quando deveria fazer sol.
Os Santos Populares já não fazem os milagres que faziam e as noivas de Sto António já levam gaiatos agarrados ao vestido.
Tudo muda à nossa volta. Até nós, já não somos o que éramos. Já deixámos de acreditar no Pai Natal, na Dona Branca e no Quique Flores.
Só já acreditamos que não haverá mudanças no campeão da Liga Portuguesa de Futebol.
As mudanças têm sido de tal ordem, que não nos admiraria saber que o Barack Obama teria sido eleito com os votos da KKK.
Estou em crer não faltará muito para que o Deus dos Cristãos se não converta, Ele mesmo, ao Islamismo.

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segunda-feira, abril 27, 2009

Santos e Pecadores

Há, ou havia, uma banda com este nome, que reputo de muito feliz e que, não assentando como uma luva na música produzida, tinha pelo menos o mérito de qualificar os seus componentes, duma maneira geral, como humanos e, em particular, como portugueses.
S.to António de Lisboa, São Nuno de Santa Maria e os Beatos Francisco e Jacinta, são exemplos bem demonstrativos até que ponto os portugueses são capazes de estar perto de Deus.
Já dos que estão perto do Diabo não reza a História, mas desde o início da nacionalidade, começando mesmo pelo seu instaurador, que os portugueses lhe estiveram sempre próximos.
Deus e o Diabo já não são o que eram e os portugueses estão perplexos sobre a forma de os identificar, tantos os milagres propalados e tão poucos conseguidos.
Belzebú, parece levar a dianteira nas preferências locais, ajudado, que o tem sido, pelas desafortunadas, mesmo desastrosas, intervenções divinas que não conseguem ir além de refutações e rezas de mal-dizer, deixando que as chamas devorem o corpo e a alma dos portugueses.
Os portugueses fizeram do pecado a sua arma de defesa, mentindo, praguejando, iludindo, roubando despudorada ou encapotadamente, usando e abusando da complacência dos seus compatriotas e companheiros de infortúnio.
As trafulhices, os embustes, o canto do vigário são a ferramenta sagrada do seu dia a dia. Os desmandos e transvios sexuais, a resposta à falta de sinais concretos de Deus nas suas almas ímpias e de respeito pelos seus congéneres.
Em nome de Deus e das suas terrenas representações todos os dias se cometem pecados maiores, lavados pela água benta.
Em cada português há um santo e um pecador militante, capaz do melhor e do pior para dar sentido à vida.

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